Pelos Caminhos de Santiago em duas rodas
Aqui fica o relato da pedalada pela mão de Manuel Torres e esposa:
“A primeira paragem fez-se em Santillana del Mar, vila medieval dos séculos XIV a XVIII, ponto turístico por excelência e um dos tesouros culturais da região.
Depois da visita e das fotos de recordação, continuamos até San Vicente de la Barquera pequena vila piscatória da costa Cantábrica, carregada de história situada no Parque Natural de Oyambre.
No Albergue dos Peregrinos situado lá no alto da vila, nos baixos da Igreja de Santa Maria de los Angeles, fomos recebidos pelos seus zeladores Luís e Sofia, que, depois de fazer o nosso registo nos avisou, que os sapatos ficavam ao lado dos outros cá fora na prateleira colocada para o efeito.
Já depois de um almoço em Quintana, esta etapa levou-nos até San Esteban de Leces onde pernoitamos no Albergue zelado pela Dolores, que nos mostrou a esfregona e o balde para que, quando acabássemos de tomar banho, secássemos o chão.
No dia seguinte saímos pela manhãzinha, e depois de 38 kms percorridos, almoçamos na aldeia de Venta de La Esperanza para recuperar forças. S. Pedro sempre connosco, pois durante todo o caminho tivemos um tempo propício para a prática da bicicleta, nada de chuva, pouco sol, embora algum vento o que é normal à beira mar. Para não nos esquecermos que estávamos numa zona montanhosa, lá estava o “rompe pernas”, aquele sobe e desce contínuo da beira mar da Cantábria. Passamos por Gijon, demos a volta à cidade pela praia de San Lorenzo, passamos pela costa, fomos à parte alta do bairro Cimadevilla ver a obra do escultor espanhol Eduardo Chillida, o Elogio do Horizonte, porto de mar e seguimos caminho até Avilés. Chegamos ao albergue Pedro Sollis logo ali à entrada da cidade, onde fomos recebidos pelo José Maria Clero.
“Esperava-nos a subida ao “alto de la Xesta” com oito quilómetros de extensão, muito dura, parte feita com a bicicleta à mão”
dia seguinte saímos de Avilés. Sempre junto ao mar lá íamos ultrapassando no caminho, outros peregrinos a que faziam o caminho a pé e a quem desejávamos mutuamente “Bueno Camino”, qualquer que fosse a nacionalidade. Chegamos a Cadavedo e aí parámos para almoçar. Pela tardinha lá chegamos ao albergue na aldeia de La Caridad. Foi sem dúvida neste que encontramos piores condições. Casa antiga, alguma humidade e cilindro de água quente sem capacidade de resposta para tanta gente, que nos obrigou a tomar banho em água fria.
Na etapa seguinte deixávamos de vez a beira-mar e o sobe e desce permanente e entravamos no caminho de Barreiros para Baamonde.
Esperava-nos a subida ao “alto de la Xesta” com oito quilómetros de extensão, muito dura, parte feita com a bicicleta à mão, conversando com os outros caminhantes, transpirando por todos os lados mas com a vontade férrea de ultrapassar a dificuldade.
Chegados a Mondonedo almoçamos no restaurante Montero e, após visita à igreja e de uma soneca de recuperação, lançamo-nos ao caminho e chegamos a Baamonde, um albergue completamente remodelado, com todas as condições, cozinha, máquinas de lavar roupa, duche de alta pressão para massagem, etc.
No dia seguinte às 9 em ponto, subimos para cima das bicicletas para fazer a última etapa. Parámos para almoçar em Lardeiros e pela tardinha chegámos ao Monte do Gozo, com mais umas fotos da praxe para mais tarde recordar. O Albergue estava cheio e tivemos que ir dormir ao Albergue Juvenil. Tudo bem, afinal ainda não somos assim tão velhos!
No domingo, descemos do Monte do Gozo até à Catedral de Santiago, onde fomos levantar a Compostela depois de apresentar a Credencial de Peregrino, com todos os carimbos colocados pelos responsáveis dos albergues e restaurantes por onde tínhamos passado, comprovativo de que tínhamos feito pelo menos 200 kms de bicicleta.
O contador marcava 584 kms e as bicicletas não se ressentiram da dureza do percurso, só tivemos que acrescentar mais 1 bar de pressão às rodas de trás devido ao excesso de peso das mochilas.
‘Devagar, cultural e gastronómico’ é assim que eu vejo os Caminhos de Santiago”.
Manuel Torres