Leigos já são mais que os padres
O Jornal NORDESTE acompanhou o percurso dominical de alguns Ministros da Palavra e da Comunhão e depressa constatou que são bem vindos nas comunidades, apesar de algumas pessoas ainda afirmarem que a celebração da palavra feita por leigos em vez de sacerdotes não é mesma coisa, recusando-se em alguns casos a ir aos templos religiosos.
No geral, os devotos gostam de ver as igrejas abertas, mas o que para uns não é boa ideia, para outros é um acto de louvar. “Conheço pessoas que não se revêem na celebração da palavra assegurada pelos ministros. Quem tem fé, como eu, vai todos os domingos à igreja, seja ela aberta por um padre ou por uma leigo. As funções são desempenhadas com respeito e, se não fossem estas pessoas, só tínhamos missa uma vez por mês”, alegou Constança Rodrigues, de 78 anos, residente na pequena comunidade de Paçó, concelho de Mogadouro.
Falta de padres mantinha igrejas encerradas
Por seu lado Fátima Fernandes, de 40 anos, recorda que a falta de padres é notória e que alguém tem de percorrer as paróquias, sendo que estes Ministros desempenham bem o seu papel e as portas das igrejas são abertas aos domingos, para bem destes pequenos lugares. “Aqui em Paçó chegámos a estar mais de dois anos sem missa. Agora a nossa capela é aberta todos os Domingos, o que se torna reconfortante, principalmente para as pessoas mais idosas”, observa.
Apesar das aldeias da região continuaram a perder população, quem fica garante que tem direitos, e ouvir a palavra de Deus é um deles. Sendo assim, não prescindem das cerimónias religiosos independentemente de quem as realize.
“Nós já somos poucos e, mesmo assim, não nos vemos todos os dias, pelo que a igreja é o ponto de encontro da população. Mal toca a o sino as pessoas aproximam-se. Com fé e devotação tanto me dá ouvir a palavra de um sacerdote ou de um leigo, desde que formado para o efeito”, acrescentou Luz Domingos, de 66 anos, enquanto se preparava para entrar na pequena capela da sua comunidade.
No que diz respeito ao perfil de quem aceita ser Ministro da Palavra e da Comunhão, a missão é encarada com responsabilidade e, acima de tudo, com respeito. A formação destas pessoas, que as habilita a presidir a estes actos, é ministrada pelo bispo diocesano e por outros elementos do cabido.
Ex-guarda fiscal aceitou
o desafio lançado
pelo bispo-diocesano
Cândido Rosete, um ex-militar da antiga Guarda Fiscal, é um dos muitos leigos que aceitou o desafio lançado pelo bispo da diocese Bragança – Miranda, D. Montes Moreira, para presidir, enquanto leigo, à celebração da Palavra e da Comunhão.
“As funções que desempenho surgiram por vocação. Hoje não poderia viver sem esta actividade e faço-o por prazer. Em conversa com familiares sempre vou dizendo que poderia ter sido padre, como a minha avó pretendia”, conta o Ministro da Palavra e da Comunhão.
Os domingos não são dias fáceis para estas pessoas que percorrem várias aldeias mediante uma escala semanal definida pelo cónego local. A tarefa não é fácil, porque chegam as fazer duas ou três celebrações em outras tantas comunidades de forma voluntária.
“Eu não tenho preferência por nenhuma aldeia em particular e vou a todas com o mesmo espírito e dedicação”, frisou Cândido Rosete, acrescentando que “explicamos sempre qual é a nossa missão. Nós não substituímos os párocos”.
Para além da celebração da Palavra, estes leigos fazem a distribuição da Comunhão, cujas hóstias são antecipadamente consagradas pelos párocos.
Outros dos exemplos de dedicação é António Marcos, de 69 anos, reformado da função pública.
“Esta minha vocação nasceu de forma espontânea e já ando nestas funções há cerca de uma década. Esta acção para mim é meritória. No entanto, é difícil encontrar quem a queira desempenhar”, salientou.
António Marcos não se acomodou nas funções, tendo mesmo tirado um curso de Teologia na Universidade Pontifícia de Salamanca.
Eis alguns pedaços de vida de homens e mulheres que não seguiram o sacerdócio, mas mantém viva a fé em dezenas de comunidades rurais.