“Não há potência disponível para construir mais parques eólicos”
Jornal Nordeste (JN) – Trás-os-Montes é uma região com forte potencial no que respeita a energia eólica?
António Sá da Costa (ASC) – É uma região com um bom potencial hídrico e eólico. Ainda com o anterior presidente, recordo-me de ir à Câmara Municipal de Bragança para solicitar apoio nas medições para a construção de um parque eólico na serra de Montesinho, e a resposta foi a seguinte: “só por cima do meu cadáver porque eu não quero ver ventoinhas da janela do meu gabinete”. E eu disse: “senhor presidente, quer o senhor queira, quer não, o senhor vai ver as ventoinhas, porque ou nós fazemos agora e antecipamo-nos aos espanhóis, ou põem eles primeiro e nós já não podemos pôr a seguir”. E assim foi. As ventoinhas estão em Espanha e não há mais valias para o município de Bragança nem para o País. Infelizmente no nosso País existe esta falta de visão.
JN – Concorda com as barragens do Tua e do Baixo Sabor?
ASC – Concordo, e também com as outras que vêm a seguir. Além de produzirem electricidade, muitas delas estão a ser projectadas como centrais reversíveis, através de bombagem, o que vai permitir potencializar os parques eólicos. Ou seja, durante a noite, quando há menos consumo e há vento, o excesso de electricidade pode ser usado para pôr as máquinas hidráulicas a funcionar com bomba, levando a água de um nível inferior para um nível superior, para que noutras alturas, quando não há vento e há mais consumo, essa mesma água possa fluir em sentido contrário, gerando electricidade. Essas centrais reversíveis são indispensáveis ao País, porque permitem armazenar energia, que de outra forma não era utilizada. Nós poderemos ter o desenvolvimento e a penetração que temos na energia eólica porque temos este tipo de centrais. Só este ano, 13,5 por cento da electricidade consumida no País provinha de parques eólicos. Isto é, em cada hora de consumo de energia, mais de 8 minutos vinham do vento, o que já é significativo.
JN – Então ainda há muito mais para aproveitar, mesmo a nível solar…
ASC – Sim, mesmo a nível solar. Mas repare que a utilização está condicionada pela nossa capacidade de poder armazenar. Eu costumo dizer que em Portugal semeia-se a batata de Janeiro a Março, colhe-se a batata de Março a Maio e come-se a batata de Janeiro a Dezembro. Isto porque há alguém neste circuito que compra e armazena, e à medida que ela vai sendo necessária, vai introduzindo a batata no mercado. As centrais reversíveis e com albufeira são esses armazéns, não de batata, mas de energia.
Quando há excesso de energia no sistema pode levá-la para bombear, e quando há falta pode reintroduzir, e nós só conseguimos aproveitar o potencial do vento se tivermos essas centrais. Não esqueçamos que as fontes renováveis são previsíveis, mas não são controláveis. Eu sei a que horas nasce o sol e há que aproveitá-lo, mas muitas vezes os consumos não batem certo com a disponibilidade do recurso e por isso é preciso armazená-lo nessas grandes centrais hídricas reversíveis, como é caso do Baixo Sabor e Foz Tua, entre outras.
“Já existe um parque eólico na Serra dos Candeeiros e a convivência tem sido boa”
JN – Acha que vai ser desbloqueada a construção de parques eólicos em zonas protegidas, nomeadamente no Parque Natural de Montesinho?
ASC – Essa pergunta tem uma resposta a dois tempos. Com a experiência que já existe em Portugal, julgo que a questão vai ser desbloqueada em algumas zonas protegidas, mas não estou a falar concretamente do Parque Natural de Montesinho. Já existe um parque eólico na Serra dos Candeeiros e a convivência tem sido boa. É muito possível que em Montesinho, não em toda a extensão, isso possa vir a acontecer.
O segundo tempo da resposta é que mesmo que sejam desbloqueadas algumas zonas protegidas, neste momento não há potência disponível para construir mais parques eólicos do que aqueles que já estão com pontos de ligação atribuídos. Isto porque os parques eólicos produzem electricidade com alguma intermitência e não é com as características da rede e das outras centrais de produção eléctrica que se vai conseguir passar dos 16-18 por cento de penetração de energia eólica. E nós estamos a aproximarmo-nos muito rapidamente desse valor.
Portanto, para atribuir mais potência só quando aquelas grandes centrais hídricas que eu já referi estiverem em funcionamento. Sendo assim, julgo que só será atribuída mais potência por volta de 2014-2015, para entrar em exploração em 2017-2018.
JN – E concorda com este calendário?
ASC – Concordo e volto ao exemplo do armazém da batata. Pode-se produzir mais batata, mas a que não couber dentro do armazém fica cá fora a apodrecer e não serve para nada. Sem termos armazéns maiores não vale a pena aumentar a produção. É tecnicamente inviável, do mesmo modo que não se consegue levar 10 pessoas num carro de 5. Esta questão só se resolve com a construção das novas barragens e respectivas centrais, e as que estão previstas só entrarão em exploração em 2016-2017. Eu espero que as populações e determinadas organizações não façam atrasar este processo, porque se o fizerem vamos ter que atrasar a construção de mais parques eólicos, o que põe em causa o cumprimento das metas da nova directiva das renováveis.
JN – Então, na sua perspectiva há que dar prioridade à energia hidroeléctrica…
ASC – Portugal tem condições muito boas nesta área. Eu sou engenheiro civil hidráulico e para mim a melhor forma de gerar electricidade é através da hidroelectricidade. O nosso sistema hídrico não tem dimensão para gerar 100 por cento e precisamos das outras fontes todas, mas a melhor delas é a hídrica.
Quando começarmos a ter maior penetração das eólicas, o papel da hídrica será ainda maior, porque se não tivermos forma de armazenar a energia gerada pelo vento durante a noite, em horas de menor consumo, o vento passa e não gera nada.
Portugal está na ponta de rede e não tem possibilidade de exportar essa energia em excesso para lado nenhum, porque quando nós temos vento a mais, Espanha também tem vento a mais. Além disso, a ligação da Península Ibérica ao resto da Europa, que se faz através do Pirinéus, não tem capacidade para absorver essa energia.
JN – Qual é a sua opinião acerca do projecto da Mecapisa?
ASC – Hierarquizando no tempo, em Portugal temos a energia hídrica, a seguir aparece a eólica e depois vem a solar. O grande salto que temos que dar em Portugal, porque também se vai dar a nível mundial, é no solar, quer foto voltaico, quer termoeléctrico. Nós ainda não estamos preparados para isso ao nível da legislação, mas é o próximo passo a dar, porque do ponto de vista da criação de emprego, o solar tem mais potencial do que a hídrica e a eólica. Quando analisamos as energias renováveis, temos que envolver também a componente económica e de criação de emprego no nosso País.
“O grande salto que temos que dar em Portugal é no solar, quer foto voltaico, quer termoeléctrico”
JN – Portugal vai cumprir a directiva das renováveis, que implica que 39 por cento da energia consumida no final de 2010 tenha origem em energias renováveis?
ASC – Não tenho dúvidas que vamos cumprir os 39 por cento. Recordo, no entanto, que em Janeiro de 2007, o nosso primeiro-ministro, voluntariamente, subiu a fasquia para os 45 por cento, e aí não tenho tanta certeza, porque tudo dependerá da forma como se poupará no consumo. Vamos estar perto e nas minhas contas julgo que poderemos andar entre os 43,5 por cento e os 44,2 por cento. Ou seja, bastante acima dos 39 por cento e muito perto dos 45 por cento.
JN – O carro eléctrico ainda é uma miragem?
ASC – Em primeiro lugar há que preparar a rede. Se em Portugal houvesse 3 milhões de automóveis e metade fossem eléctricos, teriam que existir 4,5 milhões de postos de carregamento, porque o carro terá que ser carregado em vários sítios, ou em casa, ou no trabalho ou durante a ida ao centro comercial.
JN – Ao nível da indústria e emprego, qual é o peso das energias renováveis em Portugal?
ASC – Facturação não sei, mas estou a fazer um estudo sobre o emprego. Neste momento, entre postos de trabalho directos e indirectos, as renováveis são responsáveis por 3 a 5 mil. Ainda é pouco. Na Europa ascende a 440 mil pessoas e a facturação são 30 mil milhões de euros.