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Bragança recebe pós-graduação em Psicogerontologia

Bragança recebe pós-graduação em Psicogerontologia
  • 8 de Setembro de 2009, 09:14

A Prof. Doutora Manuela Leite, coordenadora pedagógica da primeira edição da pós-graduação em Psicogerontologia, que decorrerá nas instalações do ISLA-Bragança entre Outubro de 2009 e Março de 2010, fala-nos acerca desta problemática e da importância da formação nesta área.

Jornal Nordeste – Esta pós-graduação surge mais como oferta para colmatar uma necessidade de atrair alunos ou por outro lado como resposta a uma necessidade real da população?
Prof. Doutora Manuela Leite – O envelhecimento da população é um facto, cada vez mais presentes nas nossas vidas tal como nos notifica o Instituto Nacional de Estatística (INE). Segundo os mesmos, em Portugal o ritmo de crescimento da população idosa é quatro vezes superior à jovem, estimando-se que em 2050 represente 21% da população total nacional.
Este aumento significativo da população idosa resulta do aumento da esperança de vida, não sendo contudo sinónimo de qualidade de vida. Aliás, a maior parte dos nossos idosos padece de doenças crónicas e incapacitantes, com as demências a assumirem uma posição central.
A estas condicionantes, aliam-se as alterações que se tem vindo a operar nas estruturas familiares, devido ao fenómeno de imigração dos mais jovens para as zonas costeiras e citadinas, conduzindo a uma desertificação do interior e das populações rurais e a um distanciamento físico (e por vezes afectivo) entre gerações. Deste movimento, resulta um aumento significativo das famílias compostas apenas por idosos, ou mesmo unipessoais de idosos, dificultando (ou inviabilizando) a prestação de cuidados familiares quando necessários, colmatados pelas Instituições de apoio à terceira idade.
Neste sentido, podemos considerar que esta evolução dos indicadores populacionais e de saúde apresenta um enorme desafio civilizacional às sociedades contemporâneas, exigindo a criação de estratégias voltadas para os cuidados a serem prestados a esta população.
Face às infra-estruturas de apoio à terceira idade que existem actualmente e ao cenário futuro, surge a necessidade de qualificar os profissionais que nelas trabalham de modo a maximizar a eficácia das intervenções e a minimizar os custos inerentes.

“A Psicogerontologia constitui uma resposta científica às exigências e dificuldades impostas pelo envelhecimento da população”

A Psicogerontologia, fazendo confluir dados provenientes de múltiplas disciplinas do saber, constitui uma resposta científica às exigências e dificuldades impostas pelo envelhecimento da população, tratando-se por conseguinte, de um campo de trabalho muito promissor.

Jornal Nordeste – Embora o envelhecimento da população aconteça em todo o lado, as formas de envelhecer poderão ser consideradas diferentes, conforme a região do país?
Manuela Leite – É claro que sim, pois tal como já referi anteriormente, são sobretudo as zonas interiores do pais que se confrontam com um cenário de desertificação da população, com um panorama de envelhecimento acentuado e com problemáticas graves associadas ao apoio familiar e à prestação de cuidados. Não obstante, a maior parte dos nossos idosos das zonas rurais desenvolveram a sua actividade económica no sector primário, sobrevivendo actualmente à custa de parcas pensões, o que configura uma taxa de pobreza claramente superior á população em geral.
JN – Se sim, está esta pós-graduação apta a dar resposta, atendendo a esta especificidade?
Manuela Leite – Foi precisamente este o principal motivo pelo qual a CESPU-Formação apostou na descentralização desta formação, tendo em consideração que em Gandra já contamos com 4 edições.
Quando se ministram formações nas grandes áreas metropolitanas encontramos alunos oriundos das várias zonas do país com necessidades formativas divergentes. Neste sentido, tentamos que a formação seja o mais abrangente possível.
Por conseguinte, o facto desta edição se realizar em Bragança, um Distrito do interior por excelência e com uma taxa de envelhecimento acentuada (19.1-31.3% por Nuts II, INE, 2001), permite não somente que os profissionais que trabalham nesta área tenham facilidade de frequência da formação, mas também, uma homogeneização das necessidades formativas do mesmos, tendo em consideração a especificidade contextual.
A especialização e diferenciação do corpo docente permite a adaptação da formação em geral às necessidades específicas.

JN – A resposta a este fenómeno tem quem ser dada por profissionais cada vez mais qualificados. Mas será que esta qualificação técnica é suficiente?
A selecção dos candidatos tem em conta esta particularidade, ou está aberta a todo e qualquer profissional de saúde?
Manuela Leite – Uma intervenção adequada implica que a qualificação profissional e a humanização dos serviços prestados andem sempre de mãos dadas. Esta é a principal mensagem que tentamos transmitir ao longo da formação.
É importante frisar que contrariamente ao pensamento popular, o idoso não volta a ser criança não sendo a terceira idade semelhante à primeira infância. Muito pelo contrário, a terceira idade é uma etapa desenvolvimental diferenciada das demais, onde se operam perdas, mas também ganhos. Hoje sabe-se por exemplo, que existe a capacidade de regeneração de algumas células e que a maximização das suas potencialidades permite a manutenção das capacidades físicas e cognitivas dos idosos. Não obstante, nunca em nenhuma etapa da vida o ser humano foi tão diferenciado entre si, o que implica uma atenção individualizada. Não nos podemos esquecer que de uma forma geral, envelhecemos da mesma forma que vivemos.
Neste sentido, trabalhar no âmbito do envelhecimento implica um profundo conhecimento do mesmo (normativo e patológico), bem como, das trajectórias de vida de cada idoso.
Por conseguinte, na selecção dos candidatos priorizamos profissionais que trabalhem directamente com a população idosa. No entanto, constituindo-se uma formação multidisciplinar assente no paradigma biopsicossocial, destina-se a Licenciados em Psicologia, Medicina, Enfermagem, Assistência Social, Sociologia, Antropologia, Animação Sócio-cultural e outras áreas das Ciências da Saúde.

JN – Qual a duração do curso, estrutura e onde será ministrado?
Manuela Leite – A pós-graduação em Psicogerontologia tem início previsto para o dia 23 de Outubro de 2009, terminando a 6 de Março de 2010 e decorrerá nas instalações do ISLA de Bragança.
O curso terá a duração de 111h de formação, ao longo das quais serão ministrados conhecimentos que possibilitem aos formandos: reconhecer as alterações biopsicossociais decorrentes de um processo normativo e patológico de envelhecimento; destrinçar os vários tipos de demências; identificar os transtornos psicopatológicos mais frequentes na terceira idade; adquirir conhecimentos ao nível da avaliação psicológica e intervenções terapêuticas neste contexto de trabalho; conceber o papel da prestação de cuidados na terceira idade e suas consequências; identificar situações de maus-tratos a idosos; e compreender o papel do profissional de saúde na promoção da qualidade de vida dos idosos.
Não obstante, os 14 ECTS obtidos serão creditados pelo Mestrado em Psicogerontologia (adequado a Bolonha), do Instituto Superior de Ciências de Saúde – Norte, permitindo aos formandos a prossecução da sua especialização nesta área.

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