Tensão no seio da GNR
Dado como inoperacional, as amostras do líquido foram entregues à Polícia Judiciária Militar, responsável por investigar um caso que poderá estar relacionado com o mau ambiente que se vive actualmente no seio da GNR.
“O trânsito antes tinha um comando único, de onde vinham fichas técnicas e directivas, destinadas ao efectivo de todo o país. Agora, isso não acontece”, refere um militar da GNR, sob anonimato. “Actualmente, cada comando distrital pode ter uma interpretação diferente daquilo que é a lei, e que deveria ser igual para todos. Não faz sentido. Estamos no mesmo País, que não é assim tão grande, por isso, é importante que haja a nível nacional e com uma matéria tão delicada, um só entendimento, como acontecia antes de Janeiro, altura em que a Unidade da Brigada de Trânsito foi extinta”, remata.
Desde a extinção da BT,
as multas caíram cerca
de 80 por cento
Quando questionado sobre as multas e se há, de facto, pressões por parte do comando, no sentido de se atingirem determinados números, a nossa fonte é peremptória: “pressões há sempre, ao contrário do que é normal sair para fora. Não dizem às pessoas, de forma directa, que têm de fazer X multas, mas nós sabemos como é que essa pressão é feita internamente. Como sabemos também o tratamento diferenciado que é dado a um militar que passe mais multas do que a outro que passe menos. Desde a extinção da BT, as multas caíram cerca de 80 por cento. Tivemos várias reuniões onde isso foi debatido e instruções precisas, no sentido de nos ser exigido cumprimento na questão das multas”.
Segundo o meso agente, havia 7 ou 8 militares credenciados que, habitualmente, andavam com o radar. Alguns, como forma de mostrar o seu descontentamento, deixaram de apresentar os números habituais, como consequência, o comandante retirou-os dessa função, substituindo-os por 3 ou 4 homens da sua confiança. “A esses militares, como forma de incentivo, é-lhes concedido um sistema de folgas diferente do restante efectivo”. Estes elementos, declara, chegam a ter em média, 10 a 11 folgas mensais, enquanto que uma patrulha regular tem apenas 5 ou 6 folgas por mês”, termina.
Militares da BT sem formação desde Janeiro
A formação é outros dos pontos da discórdia. “Antes, estávamos mais actualizados, havia directivas difundidas a nível nacional pelo Comando da Brigada de Trânsito, o que fazia com que houvesse uma uniformização na própria forma de interpretar a legislação rodoviária. Hoje não existe formação”, revela um militar da GNR.
Uma falta confirmada por José Alho, responsável pela Associação Sócio-Profissional Independente da Guarda, em entrevista ao Jornal de Notícias. “Os militares da BT não têm formação desde Janeiro, não se sabe até onde isto irá parar”, e que preferindo não se manifestar sobre o radar danificado com ácido, salienta “este caso concreto é revelador do mal-estar que se vive. São atitudes de desespero motivadas pela extinção da Brigada de Trânsito – que considero um erro político”.
No entanto, o Governo recusou as críticas inerentes à extinção da BT e qualquer alteração à Lei Orgânica da GNR, garantindo que a criação da Unidade Nacional de Trânsito permitiu melhorar a operacionalidade e em nada “beliscou” os direitos e regalias dos militares.
Orgulho ferido e perda
de prestígio
“O ideal seria arranjar uma forma para que o trânsito fosse comandado a nível nacional. Ou seja, que houvesse uma unidade de trânsito, pois aquilo que ficou criado, a Unidade Nacional de Trânsito (UNT), que só integra cerca de 200 homens, em Lisboa e Porto, em nada os diferencia do resto dos destacamentos, a não ser que eles tem um comando da UNT e nós estamos dependentes dos comandos territoriais de cada distrito”, assegura outra fonte interna da GNR.
“O serviço perdeu qualidade, o mal-estar entre militares está instalado, e estamos a deixar cair cada vez mais aquilo que era a unidade de elite da GNR. E a prova disso é que a GNR, neste momento, porque quis controlar o trânsito, perdeu para a PSP determinadas áreas, que eram da exclusiva responsabilidade da BT”, refere o militar, exemplificando: “na Operação Verão Seguro, antes responsabilidade da BT, vimos agora a PSP nas televisões e na comunicação social a dar entrevistas sobre como estava a correr a operação. Para nós, que tínhamos orgulho em ser da BT, obviamente que não nos agrada.
Outra situação foi a deslocação do Presidente da República a Santarém com escolta da PSP, uma situação impensável há um ano atrás, dizem os militares. “Estamos a assistir a uma perda de prestígio constante daquilo que era a Unidade da Brigada de Transito, hoje fraccionou-se, pois pertence aos comandos territoriais e nestes cada um faz à sua maneira”.
“Assistência nas marcas
demasiado cara”
É também no aspecto logístico que reside a maior diferença. “Antes desta remodelação, todas as viaturas eram assistidas na marca, ao contrário do que acontece no presente, por decisão do Tenente-Coronel Fernandes. Tínhamos contratos de assistência e nunca tivemos o mínimo de problemas com reparações. Dessa forma, as coisas funcionavam. Hoje, em nome da poupança, retira-se segurança profissional ao efectivo, pois em perseguições ou escoltas, onde se atingem grandes velocidades, pneus sem qualidade comprometem a segurança dos nossos militares”, refere um militar que prefere não revelar o nome.
“O tenente-coronel, penso que por opção, segue a lógica do investimento mínimo possível, tendo decidido que a manutenção das viaturas se efectuasse no quartel, onde dispomos de 2 mecânicos e um electricista auto, sem as condições exigidas para lidar com problemas de maior. Eles vão remediando e até são úteis no caso de pequenas avarias”, argumenta fonte anónima, realçando que o seguimento desta política, poderá ter custos elevados e causar potenciais vítimas.
Para se alterar a presente situação, o militar sugere “ou outro comandante ou uma outra forma de comandar”. “Os militares andam muito desmotivados e não me parece que a melhor forma de fazer o que quer que seja, inclua confrontá-los. A forma como o tenente-coronel faz determinadas coisas, fá-lo com o intuito de provocar. Desta forma, acho difícil uma pessoa responsável que cria vícios de comando, alterar o seu método de trabalho. Ele deveria estar mais actualizado, sobretudo, na forma como antes eram conduzidas determinadas situações”, conclui fonte do Jornal NORDESTE.