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“O PS não tem interesse em fazer oposição à Câmara”

“O PS não tem interesse em fazer oposição à Câmara”
  • 29 de Setembro de 2009, 09:04

Sob o lema Movimento Sempre Presente XIII, Humberto Rocha promete devolver o Mercado Municipal à Praça Camões.

Jornal Nordeste (JN) – Foi difícil recolher as assinaturas necessárias para avançar com uma candidatura independente?
Humberto Rocha – Não, não foi difícil. Houve uma enorme disponibilidade da parte das pessoas em colaborar. Recolhi cerca de 3000 assinaturas e só à minha parte devem ter rondado umas 2.000. Dessas que passaram pela minha mão, apenas 20-30 pessoas não aceitaram assinar. De resto, as pessoas, de forma espontânea, puxavam do seu bilhete de identidade e assinavam.
Se houvesse tempo teria recolhido 5.000-6.000 assinaturas, mas tive que parar para apoiar os processos de candidatura nas Juntas de Freguesia.

JN – Mas já anda a trabalhar na sua candidatura há mais tempo, sempre em contacto com as populações…
HR – Eu estive no executivo camarário durante 8 anos. Antes disso já conhecia muita gente. Após a passagem pela Câmara, o meu leque de conhecimentos aumentou e, desde aí, nunca mais perdi o contacto com o eleitorado. Se considera isso trabalho de candidatura, dir-lhe-ei que sim, mas a decisão de avançar, já com dados concretos, foi há relativamente pouco tempo. O essencial da minha candidatura não veio da minha passagem pela Câmara, mas do meu relacionamento com as pessoas no dia a dia.

JN – Tendo em conta que foi vereador da CMB em listas do PS, não seria natural candidatar-se por este partido. Houve contactos neste sentido?
HR – O PS não era obrigado a contactar-me para o que quer que fosse. Se o tivesse feito, eu teria reflectido sobre essa questão, mas com isto não quero que tire conclusões quanto à minha aceitação de encabeçar uma candidatura pelo PS.
O PS tem os seus órgãos próprios, convida quem quer e, muitas vezes, as decisões dos órgãos partidários locais só formalmente podem ser atribuídos aos partidos. Há influências e poderes paralelos que condicionam as decisões dos próprios partidos. Não me quero pronunciar agora sobre isso, mas durante o período de campanha irei fazê-lo. Não sou ingénuo ao ponto de pensar que a decisão do PS passou só pela estrutura local do Partido Socialista.
Sou militante do PS há 35 anos, não sou daqueles que chegam quando as dificuldades estão ultrapassadas. O meu passado enquanto militante de base, dirigente local e vereador não deixa dúvidas.

“Há influências e poderes paralelos que condicionam as decisões dos próprios partidos. Não sou ingénuo ao ponto de pensar que a decisão do PS passou só pela estrutura local do Partido Socialista”

JN – Tem consciência que vai retirar votação ao PS?
HR – Tenho consciência disso e o PS também tem, mas esse não é um problema meu. Sou líder duma candidatura independente que está a crescer, com pessoas de diversos quadrantes que se revêem neste projecto. Quanto ao resto é um problema dos órgãos locais do PS, que terão que dar conta aos militantes dos resultados que tiverem e justificá-los. Nada passará em claro e nada será como dantes. O que posso garantir é que do PS, tanto a nível dos seus dirigentes locais como dos seus militantes, nunca houve qualquer contacto comigo sobre esta matéria. O PS nunca me perguntou, sequer, qual a minha opinião sobre a forma como o processo autárquico estava a ser conduzido. Como lhe disse, outros valores e interesses se levantam…

JN – Mas houve uma fase em que o PS-Bragança pensava que o ia retirar dividendos do seu trabalho. Alguns militantes até diziam: “ele anda a trabalhar para nós”…
HR – Exactamente, está bem informado nessa matéria. Eu trabalho para o meu concelho, mas também não trabalho contra quem quer que seja do PS. Aquilo que se dizia não me preocupa. É evidente que às vezes entrava num café e ouvia: “lá vem ele”. E outros respondiam: “deixá-lo andar que anda a trabalhar para nós”. Não ficava nada preocupado com isso e continuava com o meu trabalho, tal como fiz nos anos em que fui vereador com o executivo camarário liderado pelo actual presidente da Câmara.

JN – É difícil ser vereador da oposição com este executivo camarário?
HR – Qualquer pessoa constata que o actual executivo não discute. Havia reuniões em que presidente da Câmara mudava de opinião e os vereadores do PSD mudavam também logo a seguir, gerando situações verdadeiramente ridículas. Este é um executivo que segue a vontade duma pessoa, em que há um iluminado e os restantes membros limitam-se a seguir a opinião dele, independentemente do que ela traduza. Há uma pessoa que manda e depois há uns quantos vereadores que não têm vontade própria, que são meras peças da máquina que ele monta e desmonta a seu bel-prazer.

“Apercebi-me, claramente, que o Eng. Jorge Nunes, na altura chefe de Divisão de Obras e Equipamento, trabalhava contra o executivo camarário e assim foi durante os 8 anos do executivo do Dr. Luís Mina”

JN – Nesse conjunto de peças inclui os vereadores do PS?
HR – Não vá por aí… os vereadores do PS estão numa situação bastante desconfortável. Primeiro porque não têm o apoio do partido, que tem o dever de reunir com os seus vereadores, de preparar as reuniões de Câmara e de fazer um trabalho coordenado em prol do concelho, coisa que não acontece. Tenho até a estranha sensação que os dirigentes locais do PS não têm interesse em fazer oposição à Câmara, mas não quero acrescentar mais nada.
Em segundo lugar, os vereadores do PS estão claramente em minoria. Eu sei, por experiência própria, o que é participar numa reunião com o actual presidente da Câmara, que não ouve nada nem ninguém. É a opinião dele que prevalece, independentemente das sugestões que lhe dêem.

JN – Se for eleito vereador assume o mandato ou fará como candidatos anteriores do PS, que não cumpriram o mandato até ao fim?
HR – Eu sou o único candidato nestas eleições que assumiu funções desde o primeiro ao último dia enquanto vereador da oposição. E se hoje é difícil trabalhar com o presidente da Câmara, imagine em 1997 quando ele chegou ao executivo, cheio de arrogância.

JN – E quando chegou ao poder, Jorge Nunes encontrou logo um vereador do PS que tinha feito parte do executivo quando ele era chefe de Divisão na Câmara…
HR – E o vereador que lhe fez oposição, porque cedo me apercebi das intenções de Jorge Nunes enquanto chefe de Divisão do executivo a que eu pertenci. Alertei toda a gente da Câmara e o próprio partido para a intenção que movia este senhor e ninguém me quis dar ouvidos. Não foi nada difícil aperceber-me, logo no primeiro mês do nosso primeiro mandato, em 1989, do que estava em causa e avisei logo o presidente da Câmara da altura e todo o executivo com quem trabalhei.
Apercebi-me claramente que o Eng. Jorge Nunes, na altura chefe de Divisão de Obras e Equipamento, trabalhava contra o executivo camarário e assim foi durante os 8 anos do executivo do Dr. Luís Mina, sempre com uma certa complacência do PS e do executivo a que eu pertenci.

JN – Quais as principais falhas do actual executivo camarário?
HR – É difícil resumir. Há erros de morte em determinadas obras, que por uma questão de não se dar o braço a torcer não se corrigem. No Polis e no PROCOM conseguiu-se transformar ruas largas com 2 sentidos em autênticos becos. É preciso corrigir essas obras.
Por outro lado, há um divórcio completo em relação às questões sociais, numa altura em que há famílias em Bragança a passar fome. Já viu alguma acção da Câmara nesta área? Não me repugna nada que se sacrifique uma obra para ajudar as pessoas que ficaram sem emprego e que têm filhos para sustentar.
Estamos numa época de crise em que temos que proteger as empresas do concelho. Admite-se que não haja nenhuma empresa da região a trabalhar nas obras da Câmara? Temos cá empresas com capacidade para executar essas empreitadas, mas o que vemos são empresas de Amarante ou Penafiel. A Câmara tem de criar medidas de protecção às empresas do concelho e, no caso de contratar empresas de fora, é possível reservar x por cento da mão-de-obra para as pessoas da terra. Esta é uma medida que tem suporte local.

JN – Acha que essa falta de preocupação a nível social se estende à questão do abastecimento de água, que continua por resolver?
HR – Ao contrário do que se diz, a barragem de Veiguinhas ainda não avançou por falta de competência técnica e política do actual presidente da Câmara. Deixemo-nos de histórias. O Eng. Jorge Nunes foi o único que, ao longo de 12 anos, não pôs um prego em obra. Quando chegámos ao executivo a obra do Alto Sabor estava em marcha e deve-se a um homem a quem o concelho muito ficou a dever, que é o Eng. José Luís Pinheiro. Herdámos a obra em marcha e demos-lhe sempre continuidade, sacrificando outras obras no concelho de maior visibilidade, porque não havia os financiamentos que há hoje. Chega 1997 e o Alto Sabor parou. Foi reeleito 2 vezes e o Alto Sabor continuou parado. Vir, hoje, levantar a bandeira da barragem das Veiguinhas repugna qualquer munícipe minimamente atento. Ele foi o único que não conseguiu cumprir o que quer que fosse no Alto Sabor.

“A verdade é que se fizeram as escolhas que o concelho menos precisa e a barragem das Veiguinhas foi sacrificada pela construção do túnel da Av. Sá Carneiro”

JN – Mas em 1997, a barragem das Veiguinhas fazia parte do programa do Eng. Jorge Nunes.
HR – Pois fazia, e continuou a fazer. Só que o Alto Sabor não avançou por uma razão muito simples: quem financia não pode financiar tudo e o actual presidente da Câmara optou por uma política de túneis em detrimento do Alto Sabor, que não lhe dava tanta visibilidade. Para o actual presidente da Câmara era mais importante fazer o túnel, que lhe dava mais votos, mas o Governo que lhe financiou o túnel também tinha financiado o Alto Sabor. Era uma questão de opção.

JN – Mas há o entrave das questões ambientais…
HR – As questões ambientais levantam-se sempre que não há vontade política ou disponibilidade financeira. Nós também tivemos problemas ambientais quando fizemos a conduta adutora e conseguimos ultrapassá-los. Quando se fazem outras opções ou não há disponibilidade financeira, as questões ambientais dão um jeito que nem imagina. A verdade é que se fizeram as escolhas que o concelho menos precisa e a barragem das Veiguinhas foi sacrificada pela construção do túnel da Av. Sá Carneiro. Eu nunca faria essa opção.

JN – Revê-se na intervenção que foi feita na Praça Camões?
HR – Não. Quando as pessoas dizem que a Praça Camões parece uma eira têm a sua razão. Por isso, o meu programa contempla a transferência dos serviços administrativos da Câmara Municipal para o antigo Ciclo Preparatório e o regresso do Mercado Municipal à Praça Camões. O actual Mercado Municipal poderia ser cedido para instalar os serviços públicos que estão dispersos pela cidade e poderiam ser concentrados ali, facilitando a vida aos utentes.

JN – O que pretende fazer em Izeda para dignificar o seu estatuto de Vila?
HR – É uma vila com uma componente rural extremamente importante e tem que ter um tratamento adequado à sua condição. Criaram-se expectativas em torno da construção dos bairros para os funcionários do Estabelecimento Prisional e nada se concretizou. A Câmara tem que pegar novamente nesta questão, fazendo compreender, a quem de direito, que aquilo que se combinou tem que ser cumprido. Além disso, pela sua localização a 40 quilómetros da sede de concelho, Izeda tem de ser contemplada com a descentralização de alguns serviços camarários, o que não acarreta mais despesa nem mais pessoal.
É preciso, também, acarinhar a Cooperativa de Olivicultores de Izeda, que é um dos motores da economia da vila, mas tem passado por algumas dificuldades, sem qualquer preocupação por parte da Câmara.

Entrevista: João Campos

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