“Deviam ter vergonha…”
2 @ Como é que tem registado a evolução da cidade que cedo o acolheu, ao longo dos últimos 25 anos?
R: Bragança evoluiu muito e em todos os sentidos. Em termos de transportes públicos urbanos, por exemplo, que para mim são bastante benéficos. A cidade está mais bonita, claro que, perderam-se certas coisas que, hoje, não existem. Chamavamos-lhe as tabernas e estavam espalhadas pelos quatro cantos da cidade. Havia diversão, as pessoas juntavam-se e falavam sobre tudo, esses pontos de encontro funcionavam como um manancial de informação e era também onde nós procurávamos angariar clientes. Agora, temos os cafés, tão sobejamente conhecidos, de algum luxo, mas não são a mesma coisa.
3 @ Ainda é do tempo em que as pessoas se reuniam na Praça da Sé. Como explica o que pode ter levado à perda de todo aquele movimento no centro da cidade?
R: Hoje em dia, as pessoas metem-se mais dentro dos seus casulos. Antigamente, quando eu vim para Bragança, era quase que uma necessidade virmos ao centro, estando este na confluência da vida citadina, como que por imposição. Um caso concreto, era o cinema que existia, na altura, na Praça Camões. Sempre que havia um filme, era certo casa cheia.Mas já não há esse hábito! Também, qualquer família, tem, em casa, uma televisão, o que faz com que as pessoas permaneçam mais isoladas, já que, não precisam de sair para tentar saber o que se passa, quer na região, quer no mundo.
4 @ A nível profissional, quais são os pedidos mais comuns? E os mais estranhos ou com maior dificuldade de execução?
R: Ultimamente, os pedidos baseiam-se, sobretudo, nos arranjos. Os menos comuns são fardas militares, trabalhos para gaiteiros, criança, casamentos, baptizados, comunhões, mas não os acho dificeis quanto à sua execução. Já os arranjos, alguns, podem ser bastante complexos. Apesar da prática, há certos trabalhos em que, pensar duas vezes, se torna indispensável para a execução de um bom serviço. Nós não somos famosos, as nossas próprias mãos é que nos dão a fama.
5 @ Como é que definiria o seu cliente tipo? Classe média, média-alta?
R: Eu executo para todo o tipo de clientes. Para lhe dar um exemplo, tive um médico, recentemente, para o qual trabalhei durante três meses, quase que em regime de exclusividade. Isto porque, num curto espaço de tempo, a pessoa em causa emagreceu muito. Assim, para o médico foram 30 pares de calças e 10 fatos.
6 @ Se pudesses passar uma noite com uma personalidade, em quem recairia a sua escolha?
R: Exerci, politicamente, desde o 25 de Abril. Filiei-me no Partido Socialista e lidei com todo o tipo de pessoas. Mas sabe que, fui convidado a almoçar com o Mário Soares, quando era Presidente da República, e nunca aceitei. Mas gostava de ter uma conversinha muito directa com José Sócrates, na qual lhe diria para enfrentar a pobreza que o nosso país atravessa olhos nos olhos. Deviam ter vergonha por aumentar em 2 ou 3 euros mensais reformas de gente pobre que trabalhou uma vida inteira. Podiam ajudar mais as pessoas, nem que tivessem eles, os políticos, de receber um pouco menos. Uns vivem à grande e à francesa, com demasiado de tudo, e os outros são meros coitadinhos, num jogo de peões a receberem uns míseros 240 euros de reforma. Gostaria de ter esse desabafo com o primeiro-ministro, apesar de ser militante do seu partido.
7 @ E para além da pobreza, que outras situações o “afligem”, por assim dizer?
R: Talvez não valha a pena bater no ceguinho, mas o desemprego custa-me muito. Ver jovens que gostavam de trabalhar e não têm como. Há familiares meus, directos, que também passaram por essa dificuldade e tiveram que emigrar, pois por cá não conseguiam governar a sua vida.
8 @ Então, o que poderia ou deveria ser feito pela classe política em Portugal?
R: Sempre acreditei nos portugueses e acredito. Ao longo da nossa história, tivemos grandes homens que conseguiram levantar este país. Eu nasci de uma família pobre e a minha mãe, muitas vezes, não tinha o que meter no pote para dar de comer aos três filhos. Quem sou eu para dar ideias aos políticos? Mas a situação actual é insustentável e eles deveriam tomar medidas. Sobretudo, com tantas ajudas provenientes da Comunidade Europeia, as coisas poder-se-iam resolver de uma outra maneira, fazendo com que todos nós tivessemos uma vida mais digna e desafogada.
9 @ Uma viagem de sonho consigo teria que país como destino?
R: Eu gosto de viajar, mas dentro do meu País. Já tive a oferta de duas viagens ao Brasil, pagas, e recusei ambos os convites. Não sei se devido ao receio pelo sistema implementado, se por andar de avião, mas nunca montei nenhum e, se calhar, é mesmo esse o meu receio. Em Portugal, adoro Lisboa, e não me importava nada em regressar a essa bela cidade, até porque tenho lá um filho meu.