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Reportagem: Os peregrinos

Reportagem: Os peregrinos
  • 9 de Junho de 2010, 13:22

Sempre próximos ou lado a lado, cada um com o seu ritmo próprio, e sem grandes pressas, caminhavam uma distância diária a rondar, em média, os 30 quilómetros distribuídos por 9 ou 10 horas, e repartidos em pequenas pausas.
Os albergues servem o seu nobre propósito, providenciando guarida aos nossos peregrinos após um extenuante dia de caminho. Excepção feita à primeira paragem, Moimenta. Aí foi um casal amigo a recebê-los de braços abertos. Numa hospitalidade tipicamente transmontana, um jantar caseiro retemperou forças, após um desgaste de 37 quilómetros. A cama complementou o descanso no passo mais lógico seguinte.
A 10 de Abril, o dia amanheceu cedo. Duche, pequeno-almoço e, antes das 9 horas, as solas já conheciam o calor do destino ao trespassarem a fronteira em direcção a A Gudiña.
Com séculos de existência, neste “Caminho da Prata” dos nossos antepassados, bem como noutros que acedem a Santiago, há setas amarelas, “conchas” e indicações “por medida” que garantem a fiabilidade do percurso. Assim, de várias formas se evita que, mesmo os mais distraídos, ou aqueles desprovidos de um qualquer sentido de orientação mais preciso, percam o norte ou tropecem nalgum contratempo indesejado. A partir de A Gudiña, é providenciada a logística que serve de base de apoio a todos aqueles cuja meta é a catedral na cidade santa espanhola. Os albergues são parte integrante dos 9 caminhos (apenas os Caminhos Inglês, Francês e Português chegam a Santiago, os outros vão-se juntando a estes três durante o percurso), e para que nada falte aos peregrinos, em todos eles, cobra-se a módica quantia de 5 euros.
São aos milhares
que todos os anos percorrem trilhos inauditos na procura incessante de um destino

“Podes dormir, tomar banho e co­zinhar, dão-te um lençol e uma traves­seira e só pagas 5 euros. Parecem hotéis de cinco estrelas! Mas, apenas, po­demos ficar uma noite hospedados, só se adoeceres ou tiveres magoado é que poderás ficar mais tempo”, expressa Amílcar, mais conhecido, entre os amigos, por Mica, e cujas dores nos joelhos acrescentaram um grau de dificuldade à viagem dos seus 54 anos.
Para António, a parte mais difícil do trajecto foi depois de Ourense, onde chegaram no dia 17 de Abril, uma subida de 2,5 quilómetros com 19 por cento de inclinação. “Eu fui uma vez a Santiago, em 1999, mas parti de Ourense e fiz outro caminho que há, sem ser a subida. Ainda, foram cerca de 106 quilómetros”, testemunha nos seus 51 anos.
Quanto ao cansaço, Mica assegura a sua irrealidade. “Nunca te cansas porque não vai ninguém a picar-te. Podes descansar o tempo que quiseres. Eu e o António tínhamos bolhas nos pés e púnhamos uns pensos de silicone e umas gazes, rebentávamos as bolhas e nem as sentíamos”, afirma.
Apesar das maleitas físicas, o bom tempo fez questão de auxiliar o par de andantes, enquanto que, em Bragança, um dilúvio parecia abater-se sobre a cidade. No Caminho da Prata, o sol fez questão de ser uma graça dourada constante.
Nesta que foi a segunda viagem de António, e a primeira de Amílcar, os peregrinos contaram com a preciosa ajuda de Luís Oliveira, que foi ter com eles a Ourense, tendo-os depois acompanhado no último terço da viagem.

“Podes dormir, tomar banho
e cozinhar, dão-te um lençol
e uma travesseira e só pagas
5 euros”

Para além do óbvio apoio moral, por se tratar de alguém que se deslocou propositadamente para ir ao encontro dos seus dois amigos, também se tratou de um auxiliar físico, pois como estava de carro, pôde levar consigo todo e qualquer peso extra dos caminhantes, sobretudo, as mochilas, permitindo, assim, o resto de uma viagem mais folgada e descontraída.

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