“Deixei 500 mil euros no Mensageiro”
A direcção de Calado Rodrigues toma posse em Janeiro de 2004 e percebe-se a intenção de romper com o passado no mais curto espaço de tempo.
Na altura, Inocêncio Pereira não se pronuncia, mas a
recente demissão de Calado
Rodrigues levaram-no a
quebrar um silêncio de 7 anos.
Nesta entrevista ao Jornal Nordeste, o ex-director adjunto do Mensageiro explica porque falhou o projecto anunciado em Janeiro de 2008 para
expandir o semanário diocesano para o distrito de Vila Real.
Jornal Nordeste (JN) – Qual era a situação financeira do Mensageiro quando cessou funções no cargo de administrador?
Inocêncio Pereira (IP) – O jornal ficou numa óptima situação, quer financeira, quer de equipamentos. Em 1996 tínhamos adquirido instalações para o jornal e, em 2003, recuperámos as antigas instalações para fixar o arquivo. Ao todo gastámos 250 mil euros, mas para gastarmos isso tínhamos que ter muito mais, até porque não fomos buscar um tostão à banca.
JN – A transição para a nova direcção de Calado Rodrigues foi pacífica?
IP – Quando foi para Roma estudar Comunicação Social, o padre Calado já foi ao serviço do Mensageiro. Pouco antes dele regressar, eu tinha tudo preparado com o senhor bispo para entregar o inventário e as contas, mas não pensava que no próprio dia da minha festa de despedida a nova direcção mudasse as fechaduras do jornal. Quando cheguei lá, na 2ª feira de manhã, não consegui entrar, mas não foi isso que nos impediu de entregar a contas em dia e com transparência ao senhor bispo.
JN – Fala-se que o Mensageiro tinha alguns milhares de contos em depósitos bancários. Confirma?
IP – Nas contas que entreguei ao senhor bispo o Mensageiro tinha muito próximo dos 500 mil euros, em depósitos à ordem e a prazo, e quase 100 mil euros em carteira de assinantes e anunciantes, que permitiam ao jornal viver desafogadamente.
JN – Era uma situação bem diferente daquela que encontrou quando entrou para o jornal, em 1976…
IP – Completamente! Quando pegámos no jornal estivemos 4 anos sem vencimento para poder levantar o título, que não tinha instalações, não tinha equipamento, não tinha dinheiro e ainda devia 150 contos à banca. Mesmo o padre Sobrinho Alves, que dirigiu o jornal de 1980 a 1984, nunca ganhou um tostão! Depois, quando a situação melhorou, todos os que lá trabalharam tiveram o vencimento possível.
JN – Mas é sabido que o senhor conseguiu transformar o jornal numa publicação rentável. Acha que a direcção de Calado Rodrigues deu seguimento ao seu trabalho?
IP – Eu ia para o terreno! A primeira coisa que fiz quando assumi o cargo de administrador, em 1979, foi reunir com todos os presidentes de Câmara, com os responsáveis de instituições públicas e com agências de publicidade, mesmo em Lisboa.
Dessas viagens resultava sempre algo de positivo, mesmo nos corredores do poder, porque sempre tive a porta aberta em alguns gabinetes, nomeadamente o do então ministro Marques Mendes. Também apostávamos muito em cadernos e suplementos dos municípios e tudo isso era para investir na modernização no jornal. Eu entendi que como administrador e como jornalista tinha que ir para o terreno e não é à toa que muitas pessoas ainda me ligam ao jornal.
Parece-me que a direcção do padre Calado deu-se pouco a conhecer. Disse ao senhor bispo que me disponibilizava para apresentar a nova equipa directiva às entidades de todo o distrito, para os ajudar nos primeiros 6 meses, mas ele não me respondeu. Disse o mesmo ao padre Calado, mas ele respondeu-me que não precisava porque conhecia muito bem o distrito.