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O último ferreiro de Vale de Frades

  • 19 de Outubro de 2010, 10:00

Aos 77 anos, o artesão teima em manter viva a profissão de família, apesar do volume de trabalho ter vindo a diminuir e da saúde já lhe faltar para moldar o ferro.
“Ando aleijado já há alguns anos. Mas ainda divido o tempo no campo e na oficina. Sou o maior produtor de azeite de Vale de Frades. Na forja ainda vou fazendo uns trabalhitos, apesar das máquinas agrícolas terem substituído a maioria das ferramentas”, conta Ernesto Pires.
O ferreiro recorda os tempos árduos em que trabalhava com o pai. “Durante o Inverno começava-se a trabalhar ainda de noite e era até às tantas. O meu pai também tinha lavoura, então nos meses de Inverno marcava um dia para cada lavrador, chamávamos-lhe nós a frauga. Quando não se acabava naquele dia pegava-se no trabalho no dia seguinte”, explica Ernesto.
É um trabalho duro, por isso não teve seguidores. “ É dos trabalhos mais ingratos e mais forçados que existe, mas eu ainda me lembro da minha mãe me ir chamar à escola para vir dar ao fole. Naquele tempo, mal chegava à argola. Mas quando tinha para aí uma dúzia de anos comecei logo a trabalhar com o malho na bigorna”, salienta o ferreiro.
Ernesto Pires realça a influência da vizinha Espanha no trabalho desenvolvido pelo seu pai. Aliás, foi Ernesto que passou a salto a bigorna que tem na oficina. “O meu pai tinha uma terra junto à fronteira. Então meteu a bigorna dentro de uma saca e eu trouxe-a às costas para o lado de cá. Depois carregamo-la em cima de uma carroça e cobrimo-la com lenha, que era para os guardas não verem”, recorda o artesão.
Na oficina o trabalho não dava tréguas. Vinham pessoas de longe para arranjar as ferramentas com que trabalhavam a terra, o que, por vezes, obrigava a trabalhar até ao domingo. “Aos 12 anos, eu e o meu irmão já fazíamos trabalho de adultos”, lembra.
Numa visita à forja, Ernesto Pires mostra as máquinas que usa para moldar o ferro e enaltece que algumas foram criadas pelo seu pai, que apesar de não saber ler nem escrever, “era um homem inteligente”. “Antigamente aqui os arados eram de madeira, mas em Espanha começaram a fazer de ferro. Então o meu pai, mais conhecido pelo Tio Carriço, viu e fez os primeiros arados de ferro aqui na aldeia”, recorda o artesão.

Ernesto Pires recorda os tempos em que o trabalho era de sol
a sol e afirma que a dureza
do trabalho afasta seguidores
A par das ferramentas, na forja desta família também era feita a circunferência em ferro para encaixar as rodas das carroças de animais. “Foi ele [pai] que criou a máquina para fazer a circunferência com o ferro”, acrescenta.
A par da profissão de ferreiro, Ernesto também aprendeu a arte de ferrador. Era na forja que fazia as ferraduras que usava para “calçar” os animais. Hoje, apesar da saúde já não o ajudar, ainda mostra como se ferra um animal para proteger os cascos.
A forja comunitária também foi construída pela Junta quando o “Tio Carriço” adoeceu e teve que parar durante uns tempos. “Na altura, vinha cá um ferreiro de Avelanoso fazer o trabalho. Depois eu e o meu irmão seguimos as pisadas do meu pai”, conta Ernesto Pires.

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