Isolados pela neve
Aqui resistem, apenas, quatro pessoas, que teimam em habitar as casas onde viveram uma vida. Os dias são calmos e, quando neva, os acessos ficam complicados, visto que os meios de limpeza da Câmara Municipal de Bragança não chegam a todo o lado.
“Quando neva muito o que nos vale são os tractores. Quando há carros que vêm cá e depois não conseguem subir, têm que ser puxados pelos tractores”, conta Maria do Amparo, que nasceu e cresceu neste lugar pacato.
Aos 78 anos, esta habitante recorda os tempos em que a Quinta de Arufe tinha 25 moradores. Eram tempos de muito movimento e a mocidade até fazia uma festa no Dia de Todos os Santos (1 de Novembro), com um magusto e sardinhas assadas para toda a gente.
Os mais novos partiram e os idosos foram morrendo. Mesmo assim, os quatro habitantes deste lugar assinalam o dia do padroeiro com uma missa. “Fizemos no passado dia 30 uma missa ao Santo André. Antigamente fazíamos uma procissão. Este ano, no dia da missa também tínhamos cá neve, mas mesmo assim as pessoas vieram”, enfatiza Maria do Amparo.
Aqui as pessoas trabalharam a vida toda na agricultura. Agora criam, apenas, alguns animais e cultivam uma horta pequena para subsistência. “ Cheguei a ter porcos, vacas e vitelos, mas tive que vender tudo, porque eu e o meu marido já não podemos trabalhar e os filhos foram tratar da vida deles”, conta a habitante de 78 anos.
Quando os quatro idosos partirem, a Quinta de Arufe deverá ficar sem moradores e as casas continuarão a ruir
Numa visita pela Quinta de Arufe coberta de neve e com candeias de gelo nos beirais dos telhados é possível verificar o abandono das casas, a maioria já em em ruínas. Até a casa brasonada que, outrora pertenceu a famílias mais abastadas, está votada ao abandono. “Era de um senhor que tinha cá caseiros, mas depois ele morreu, os filhos venderam e tem passado de mão de mão, mas agora está em ruínas”, conta Maria do Amparo, enquanto faz a visita guiada pelas ruelas deste lugar.
Na passagem pela capela, a habitante enaltece a importância do templo, onde a missa só é rezada em dias festivos. “Gostávamos de lhe dar um arranjo, mas não temos dinheiro suficiente”, lamenta.
Mais a baixo encontramos Ana Caminhante, que estava ao telefone com a irmã emigrada em França. Esta moradora de 77 anos afirma que, por vezes, se sente isolada na Quinta de Arufe, apesar de contar com a visita de familiares. “Quando eu vim para aqui havia mais pessoas. Lembro-me dos emigrantes terem cá casa e virem cá passar as férias”, recorda.
Este lugar dista, apenas, cerca de dois quilómetros de Rebordaínhos, o que leva os comerciantes ambulantes a deslocarem-se à quinta para abastecerem os quatro moradores. “Vem cá o padeiro e uma carrinha com mercearia e congelados, é um autêntico supermercado”, realça Maria do Amparo.
Aqui o que falta é mesmo gente, já que os populares se orgulham de ter um acesso asfaltado até ao cruzamento de Rebordaínhos, as ruas empedradas, luz, água e telefone.