Rituais ameaçados
A aldeia de Bruçó, no concelho de Mogadouro, onde decorreu a “Festa dos Velhos de Bruçó”, é uma das localidades que tenta resistir à falta de jovens para darem “vida” às quatros figuras “pantomineiras” personificadas nesta festa pagã.
“Estas festas começam a ser difíceis de organizar, devido à falta de jovens na aldeia. Muitos saíram para estudar ou para organizar a vida no exterior e não voltaram à terra natal, o que faz com haja pouca gente para encarnar os personagens”, afirmou a mordoma da Festa dos Velhos, Sílvia Rente.
Por ou-
tro lado, o investigador da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Luís Tibério, está convencido que mesmo com a desertificação dos lugares, “haverá sempre um grupo de jovens dispostos a manter vivas estas tradições ancestrais”.
Estes rituais são personificados por quatro personagens que interagem com a população. Todos os mascarados rondam pela aldeia com o intuito de fazerem um peditório pela casas numa luta contínua entre figuras opostas, entre trejeitos de carácter sexual ou simulação do acto reprodutor ou reproduzindo os trabalhos essenciais a manutenção da comunidade.
“As festas caracterizam-se pela envolvência dos jovens nestes rituais de emancipação, muitos dos quais têm que assumir o papel com um pouco de boa vontade, já que não há muito por onde escolher”, observou Antero Neto, que faz destes rituais um passatempo, para mais tarde os documentar.
Ainda, recentemente, havia uma certa “rivalidade” entre os jovens para representar cada uma das personagens, o que por vezes se traduzia “numa verdadeira competição” entre as famílias mais numerosas da aldeia.
As festas pagãs celebradas hoje, em várias localidades transmontanas, inclusive na aldeia de Bruçó, inserem-se num conjunto de rituais do solstício de Inverno que se estendem até ao Carnaval.