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“Os franceses não conhecem o bom Porto”

“Os franceses não conhecem o bom Porto”
  • 16 de Março de 2011, 08:44

ENTREVISTA

1 @ Sendo esta a tua primeira vez em Portugal, como é que vês esta região, em particular o Douro Vinhateiro, bem como o nosso país?

R: Há uma conivência enorme entre Portugal e França, pois temos muitos portugueses no nosso país. Para mim, esta é uma região histórica do vinho, deveras importante por ter sido, talvez, a primeira região demarcada. E, ao mesmo tempo, tem um clima agradável para nós, franceses. O sol, o calor e, depois, as paisagens extremamente soberbas. Posso dizer-te que Portugal é um dos grandes países do vinho.

2 @ Como definirias os vinhos da Região Demarcada do Douro?

R: São vinhos com muito carácter e que respeitam a importância do ambiente natural do vinho. A dimensão do vinho do Douro, sobretudo, do Vinho do Porto, é frequentemente incompreendida em França. Assim, é difícil para nós franceses conseguirmos apreendê-lo, porque não estamos habituados a degustar o Vinho do Porto. Ou seja, os franceses não conseguem compreender o Porto porque não conhecem o bom Porto. É triste, mas é verdade. Nós, profissionais, sabemos a qualidade do vinho desta região, mas os nossos compatriotas franceses não. Nesse aspecto, são completamente ignorantes perante esta região, a sua história e a sua cultura intimamente associadas ao vinho.

3 @ Com o advento do século XXI, pode ser perigoso para o pequeno produtor vinícola duriense, querer modernizar equipamentos e internacionalizar a sua marca?

R: Sim, claro! Esse factor de querer internacionalizar um bom vinho pode corrompê-lo na sua essência. Agora, há muitas novas tendências no mercado vinícola, mas as modas só são seguidas por quem lhe falta personalidade. E isso não se justifica! Falamos do Douro, uma região a que não falta personalidade. Pelo contrário, a sua história é extremamente rica em termos vinícolas, de carácter pronunciado, de talento, de sabedoria adquirida ao longo de séculos. É um vinho, sem dúvida, poderoso.

“Deve-se regressar às origens! O produto local é o que realmente interessa e não o culto das marcas. Eu procuro os grandes produtores desconhecidos…”

4 @ Ou seja, abandonaste a restauração para te dedicares de corpo e alma à descoberta de novos produtores, de melhores vinhos, correcto?

R: Depois de 16 anos na restauração, como sommelier de alguns restaurantes com Estrelas Michelin, decidi contornar a questão. Aquilo que acontecia era o seguinte: o meu interesse residia nos vinhos e nos seus produtores e não nos restaurantes em si. Daí eu ter decidido dedicar mais tempo à descoberta de novos vinhos. O problema é que me era impossível estar em dois locais simultaneamente. No restaurante e na vinha. Por isso é que eu deixei a restauração. Agora, passo três, quatro dias, no mínimo, em cada mês, nas vinhas, junto do agricultor, do pequeno produtor de vinhos.

5 @ Mas porquê?

Para eu poder conhecer, degustar e aprender algo novo. Porque não são os sommeliers os melhores provadores de vinho. Nós degustamos sempre os mesmos vinhos, sempre as mesmas coisas. E é no terreno que aprendemos.

6 @ Quais são os países que eleges como sendo o berço de alguns dos melhores vinhos?

R: Não porque eu sou francês, mas, evidentemente, é a França. No meu país há um mosaico de regiões fabulosas. Temos a Borgonha que é, talvez, hoje em dia, o pulmão do mundo vinícola. Bordéus, também, a Provença, a Córsega e tantas outras. Há, ainda, a Itália que faz belos vinhos. A Grécia e Portugal, claro, com a sua história riquíssima.

7 @ E para além da Europa?

R: Eu estive na Austrália e vi que quando os produtores de vinho se aplicam, fazem um trabalho de fundo, eles podem fazer muito bom vinho. A África do Sul está, também, a desenvolver um trabalho interessante.

8 @ Para terminar, que vinhos recomendarias ao comum dos mortais?

R: Uma garrafa de vinho branco Bourgogne Aligoté, 2008, que custa 7 euros, um tinto Bourgogne Passe Tout Grain, de 2009, a 8 euros, e, por fim, um champanhe “Les Radiais”, 2005.

Discurso directo

“Fui Sommelier ao longo de 16 anos. Uma profissão que consiste em degustar e conceber as cartas de vinho de um restaurante. Trabalhei vários anos na cidade de Paris, em restaurantes como La Tour d`Argent, Lasserre e Fouquet`s.
Tenho, ainda, um blog, desde 2005, que foi considerado o melhor de vinhos em França, no ano de 2010, e onde escrevo 2 ou 3 artigos por semana. O que dá muito trabalho, mas, também, muita visibilidade, já que se ligam entre 1000 a 1500 pessoas todos os dias. Para além disso, sou consultor de vinhos”.

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