A premência da verdade
Depois de ao longo de anos afirmar um discurso político contundente e afirmativo o Partido Socialista e o Governo ensaiaram nas últimas semanas um discurso de vitimização procurando transferir para os partidos da Oposição a responsabilidade pela situação difícil e extremamente exigente que o país agora experimenta. Na verdade poderíamos afirmar que o Partido Socialista se atirou para a frente de um automóvel para se poder queixar de ter sido atropelado! É surpreendente a capacidade com que o Governo e o Partido Socialista promovem a sua vitimização, repetindo, olhos nos olhos, aos portugueses que a situação de insolvência iminente, em que Portugal se encontra, resulta da decisão dos Partidos da Oposição em inviabilizar as linhas de orientação do Pacto de Estabilidade e Crescimento, quando é inegável que as medidas de austeridade que o Governo se propôs executar, algumas delas já este ano, resultam da falta de controlo e incapacidade do um executivo (inquestionavelmente eficaz e voraz, na arrecadação da receita por via do agravamento da carga fiscal sobre as empresas e famílias portuguesas, mas completamente desleixado no combate aos gastos supérfluos da Administração Pública e do Sector Empresarial do Estado) em corrigir a trajectória económica e financeira percorrida pelo país ao longo dos últimos anos e cujos resultados estão há vista e que todos sofremos.
É tempo de encarar a realidade e perceber que os portugueses devem mudar a sua atitude para com os políticos e para com as propostas partidárias submetidas a apreciação eleitoral! Urge compreender que é imperativo repensar o país e o papel do Estado na nossa sociedade. Não é possível continuar a permitir que o Estado insista em alimentar uma despesa equivalente a 58% da riqueza anualmente produzida em Portugal e que esse mesmo Estado tenha uma capacidade de arrecadação de receitas que não ultrapassará os 50% da riqueza produzida anualmente no país! Não é possível manter este desequilíbrio, que qualquer doméstica saberia reconhecer como insustentável, exigindo-se de todos uma discussão séria, objectiva e de compromisso em torno do nosso futuro colectivo. Portugal atingiu o seu limite e não é possível prolongar por muito mais tempo a ficção criada por alguns e que nos conduziu à situação actual. Não é admissível continuar a onerar as novas gerações, a quem se negam oportunidade de emprego e de futuro, com os encargos de uma dívida pública que ultrapassa os 80% da riqueza produzida no país, para alimentar clientelas e conglomerados de interesses, ou para mascarar o desequilíbrio financeiro do sector público administrativo. Não é possível continuar a condescender em despesas de sumptuária e sem efectiva função económica ou social. Um estudo recente, realizado por um investigador português, na Simon Fraser University, no Canadá, revela que existem em Portugal 349 Institutos Públicos e mais de 600 organismos, consumindo-se em pouco mais de 40 destes mais de cinco mil milhões de euros, concluindo-se no referido relatório que bastaria um corte de 20% nas despesas destes 40 organismos para se alcançar uma poupança de cerca de mil milhões de euros evitando-se, assim, a necessidade de novos aumentos do IVA e bastando a execução de uma política de extinções e fusões, apenas, nestes organismos para se alcançar uma poupança de aproximadamente quatro mil milhões de euros, evitando, assim, os cortes nos salários.
Os portugueses devem exigir de todos os Partidos a verdade dos factos e a revelação da real situação em que nos encontramos, não para a acostumada troca de recriminações e de culpas, mas acima de tudo para a realização de um amplo debate nacional em torno do futuro do nosso país e a definição de um novo conceito estratégico nacional que envolva, de forma inter-geracional, todos os portugueses, num amplo esforço colectivo de regeneração de Portugal! A verdade deve ser a maior das nossas exigência e a maior das obrigações de todos aqueles que se propõem representar-nos e liderar o país. Mas a verdade de que todos precisamos não pode ser circunstancial, parcial ou mascarada com quaisquer subterfúgios discursivos. Os portugueses merecem toda a verdade e não apenas aquela que não incomoda ou não importa custos eleitorais. A gravidade dos tempos que se avizinham e o restabelecimento da confiança nas instituições democráticas exige de todos, sem excepção, uma nova atitude cívica e uma nova responsabilidade política, sem as quais o futuro de todos ficará irremediavelmente comprometido!