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“Há poucas oportunidades para os transmontanos mostrarem o seu valor”

“Há poucas oportunidades para os transmontanos mostrarem o seu valor”
  • 3 de Maio de 2011, 15:46

1: Como é que é um transmontano imigrar para Itália?

R: Depois de muitos e bons anos aqui em Portugal, foi bom! É uma experiência nova, uma nova aventura que me está a agradar bastante e na qual me tenho empenhado muito.

2.: Houve algumas dificuldades de adaptação?

R: É normal! Depois de estarmos tantos anos no mesmo sítio, muda-se de país, mudam os hábitos, os métodos, há sempre alguma dificuldade no início, mas aos poucos as coisas voltam à normalidade, por isso penso que estou a adaptar-me bem e espero, no futuro, conseguir fazer ainda melhor.

3 @ Em termos de futebol italiano, sentiu alguma diferença em relação ao português?

R: Sim, bastante. Acima de tudo, na qualidade das equipas, nos métodos de treino e mesmo no próprio jogo em si. O futebol italiano é mais competitivo, há mais disponibilidade financeira dos clubes e é um campeonato mais exigente. Mas que me está a agradar bastante.

4 @ Futebolisticamente, cresceu em Mirandela. Como é que foi a saída daqui para a Primeira Divisão?

R: Lembro-me perfeitamente. Eu comecei aqui nos infantis e, depois, tive a felicidade de conhecer o Sr. Rocha, que foi o meu grande suporte quando eu era miúdo, que me ajudou bastante, que me levou para o Guimarães e que, depois, me levou para o Braga, onde fiquei estes anos todos e bem. Estou bastante orgulhoso, da maneira como consegui e orgulhoso, também, da carreira que tenho feito.

5 @ Sentiu mais dificuldades por seres transmontano? Pois não há muita tradição dos transmontanos chegarem tão longe como chegou.

R: Sim. Infelizmente, não tem havido muitos. Penso, também, que há poucas oportunidades dos nossos jovens demonstrarem o seu valor. Mas, felizmente, há pessoas como o Sr. Rocha que conseguem fazer esses esforços e proporcionar um futuro melhor a esses jogadores, tentando-lhes dar algumas oportunidades porque a gente sabe que este meio não é fácil. Desde miúdo que eu tenho uma mentalidade forte, de trabalhador, e soube que tinha de agarrar a minha oportunidade desde muito cedo e agarrei-me ao trabalho. Também marcou-me um pouco daquilo que sou hoje e penso que tem sido uma das forças do meu sucesso.

6 @ Mas o que é que acha que seria necessário para haver mais transmontanos a conseguirem o sucesso como você conseguiu?

R: Acima de tudo, terem paixão por aquilo que fazem e força de vontade. Paixão pelo desporto, neste caso, pelo futebol. E depois a sorte e a oportunidade porque aqui não há tanta visibilidade, pois não temos equipas de Trás-os-Montes na Primeira Liga. Mas espero que um dia a sorte chegue e quando chegar os jovens devem estar preparados e isso exige trabalho, sacrifício e força de vontade.

7 @ Faltam é oportunidades?

R: Sim! Faltam muitas oportunidades por aqui, mas, também, acho que tem de haver paixão por aquilo que se faz e depois a sorte. Um dia, pode ser que aconteça com os outros aquilo que aconteceu comigo.

“Sonhei com a Selecção, trabalhei e as coisas aconteceram”

8 @ Saíu de Mirandela com que idade?

R: Com 13 anos fui para o Guimarães, onde tive uma época. Depois, regressei a Mirandela por mais um ano e, finalmente, fui para o Braga, onde estive estes anos todos.

9 @ Nessa altura, sonhava já com o número Um da Selecção?

R: Quando somos novos sonhamos com muita coisa. Olhamos, claro, com desconfiança porque há, ainda, um longo percurso, um caminho cheio de obstáculos e a gente nunca pode perder o rumo. Agora, sonhar é chegar lá. É óbvio que as várias etapas vão acontecendo e quando as coisas se aproximam sonhamos mais e, depois, a força de vontade também conta. Acho que foi o que aconteceu comigo. Sonhei quando era novo, fui trabalhando, as coisas foram acontecendo, consegui jogar nalguns clubes da Primeira Liga, consegui ter sucesso em quase todos por onde passei. Uma das grandes alegrias da minha carreira é, por onde passo, as pessoas retribuírem-me com carinho aquilo que eu fiz. Isso deixa-me bastante orgulhoso!

10 @ Ainda se lembra como foi a primeira vez que foi chamado à Selecção?

R: Lembro-me, perfeitamente. Eu passei por todos os escalões de formação, mas nunca fui internacional. Quando chegou a minha primeira convocatória, pois era algo que eu já perseguia, mediante o trabalho que eu vinha desenvolvendo, aí eu senti que poderia estar perto. E quando chegou o dia foi, há coisas que não se conseguem descrever quase em palavras, e esse foi um desses momentos. O dia em que eu vesti, pela primeira vez, a camisola da Selecção para jogar contra a Finlândia, no Estádio do Algarve, foi algo fenomenal.

11 @ Foi um dos heróis da Selecção no Mundial. Como é que foi, depois, a chegada a Portugal? Os adeptos receberam-no bem?

R: A maneira como fui recebido foi fantástica, foi calorosa. Independentemente, de não termos atingido aquilo que queríamos. Mas, em relação a mim, as pessoas foram fantásticas. Foram, realmente, carinhosas comigo pelo meu desempenho. É óbvio que estávamos todos tristes por não termos conseguido, mas, pronto, o futebol é assim mesmo. E o que aconteceu, aconteceu…

“Mundial já é passado”

12 @ O que é que correu mal na África do Sul?

R: Tivemos um jogo que não conseguimos realmente, em que jogámos contra a equipa que foi a campeã do mundo. Perdemos por 1 – 0…

13 @ Mas a equipa estava a jogar demasiado à defesa com se falava?

R: Não sei. São factores do futebol… Temos de perceber que jogámos com Espanha, a equipa que foi campeã do Mundo. E só perdemos por 1 – 0. É um adversário que não deixa as outras equipas ter a bola e a Espanha, nesse dia, teve um poderio sobre nós sobre o qual não conseguimos responder. Tivemos um jogo, há bem pouco tempo, em que a gente conseguiu e o futebol é assim mesmo.

14 @ O Carlos Queirós saiu e, agora, há um conterrâneo aos comandos da Selecção…

R: Sim. Agora, entrou o Paulo Bento. Uma nova era. Felizmente, começámos bem. Em duas partidas difíceis que tínhamos e bastante importantes, conseguimos duas vitórias que nos relançam no apuramento. E, agora, estamos a fazer uma boa preparação para os jogos decisivos que aí vêm. Já mostrámos que estamos a crescer e esperamos, no tempo devido, estarmos fortes porque são jogos decisivos para atingirmos o objectivo que queremos. E estou convicto que vamos conseguir.

O segredo de Mirandela

15 @ Mirandela é uma cidade pequena com poucos habitantes perdida no meio do Nordeste Transmontano. Mas temos um titular da selecção e o próprio seleccionador nascidos em Mirandela. Como é que se explica esse sucesso? Existe algum segredo?

R: Tivemos as nossas oportunidades, tanto eu como ele, e, felizmente, conseguimos responder. Acima de tudo, a paixão, a força de vontade, lutarmos por aquilo que queremos, pode e deve servir de exemplo, como eu os tive, para estes miúdos que um dia as coisas podem acontecer. E se sonham, que tentem ao máximo, que não se arrependam depois, porque as coisas acontecem. Acreditem que podem ser alguém!

16 @ Nota no seleccionador Paulo Bento algum traço transmontano? Seja na pronúncia, na maneira de ser…

R: Nota-se um pouco… Ainda há poucos dias ele esteve em Itália comigo e ele ainda se lembra bastante daqui. Aliás, acho que ele tem familiares em Bragança e ele costuma frequentar muito esta zona. É óbvio que nós temos a nossa marca e não deixamos que isso fique para trás.

Alheira não falta em Itália

17 @ Tem alguma marca ou produto de Trás-os-Montes que permaneça consigo em Itália? Mesmo a nível de comida, por exemplo?

R: Não é fácil! Eu sou um amante da gastronomia de Trás-os-Montes. Como se diz, sou um bom prato! Mas em Itália os hábitos são completamente diferentes dos portugueses. Quanto mais dos transmontanos, que é uma região tão típica nesse aspecto. Mas sempre que posso venho cá fazer os meus carregamentos.

18 @ De que é que gosta mais em Trás-os-Montes?

R: As alheiras, os presuntos, os salpicões, aquelas coisas todas que fazem mal mas que a gente adora.

19 @ E faz publicidade das alheiras de Mirandela?

R: Em todo o lado! É pena não as haver lá porque eu seria, realmente, um bom cliente.

António Gonçalves Rodrigues

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