“Ministério da Cultura não está nos meus projectos”
Jornal Nordeste (JN) – Foi uma aposta pessoal do actual líder do PSD, Passos Coelho, para encabeçar a lista por Bragança. Foi difícil aceitar este desafio?
Francisco Viegas (FV) – Foi difícil até ter aceite. A proposta surpreendeu-me porque não esperava nem estava nos meus projectos dedicar-me nem que fosse uma legislatura à vida política. Sentia-me uma pessoa completa com aquilo que fazia. No entanto, esta proposta teve algum pelo facto de se tratar de Bragança. Para mim é um regresso aos meus antepassados.
A nível político, vivemos num período em que estamos submergidos por alguma indiferença e cinismo que têm a ver com o desconfiar do político, desconfiar das suas iniciativas e propostas. Chegamos a um ponto em que as pessoas vêem a política com uma certa indiferença e, se as pessoas não se interessam por um mau Governo e não fazem nada, é péssimo. E foi isto que me levou a responder, passados uns dias, ao Dr. Pedro Passos Coelho.
JN – O presidente da distrital foi a voz que mais se levantou…
FV – Eu creio que não foi a voz que mais se levantou, foi a voz que se levantou. Mas a relação com José Silvano foi sempre excelente. A partir do momento em que nos encontrámos pela primeira vez, percebemos logo que não estávamos a tirar o lugar de ninguém, mas estávamos a trilhar o mesmo caminho.
JN – Já tinha experiência política anterior? Tenho ideia que foi candidato à Assembleia Municipal de Foz Côa, pelo PS…
FV – Sim, tive um amigo que se candidatou à presidência da Câmara de Foz Côa, pelo PS, e perguntou-me se eu não poderia ajudá-lo. Acho que ele tinha um projecto excelente para Foz Côa e apoiei-o em meu nome, mas não é uma participação política activa.
JN – Aceitaria fazer parte de um Governo encabeçado pelo Dr. Pedro Passos Coelho?
FV – Pela minha vida já passei por tantas profissões. Já fui cozinheiro, professor, investigador, jornalista e isso deu-me uma certa experiência e noção de como a nossa vida e nós nos podemos adaptar. Isto significa que levo os desafios um de cada vez. O de Pedro Passos Coelho foi o de representar o distrito de Bragança e é isso que estou a fazer. E há coisas engraçadas nesta campanha. Há dias, fizeram-me a pergunta se eu ia ser Ministro da Cultura e eu disse, a rir, que se calhar nem vai haver Ministro da Cultura. É uma pergunta absurda! Além do mais não está nos meus projectos. Depois brinquei e disse aquilo para acabar com a pergunta. Essa resposta resultou numa polémica sobre a existência de Ministério da Cultura que até motivou os partidos de Esquerda, em Bragança, a declararem-se contra o fim do Ministério da Cultura, como se isso dependesse deles.
“Como se sabe, a A4 sobrepõe-se à IP4, não há alternativas e, portanto, somos contra as portagens”
JN – Como é que se convence uma pessoa que, durante duas décadas reivindicou uma auto-estrada, e neste momento está num distrito que mais parece um estaleiro de obras.
FV – A auto-estrada é uma pedra fundamental, mas não é uma obra do PS, é uma obra do Estado Português e temos de dizê-lo com muita clareza. É verdade que esta obra que foi decidida a 30 de Setembro de 2004 pelo Governo de Santana Lopes e depois, em Novembro de 2004, num Conselho de Ministros realizado aqui em Bragança, em que António Mexia, na altura ministro das Obras Públicas do Governo do PSD, disse que era necessário revolucionar o panorama rodoviário transmontano. Portanto, todas estas vias não são decisões do PS, são decisões do Estado Português.
JN – Acha que as portagens vão ser um entrave à vinda de turistas para a região?
FV – Quando se iniciava esta campanha eleitoral, havia alguma dúvida sobre essa matéria e no lançamento de candidatura fizeram-me logo essa pergunta, de modo que a minha resposta foi dura e decidida. Disse que não sabíamos e que íamos estudar. Mas anunciámos com muita clareza que o PSD é absolutamente favorável à não existência de portagens. Pode ir até sete anos e, esses sete anos funcionam como uma espécie de compensação por todos os anos que Bragança esteve e está isolada do resto do país. Como se sabe a A4 sobrepõem-se à IP4, não há alternativas e, portanto, somos contra as portagens. Defendemos uma moratória das portagens, tanto o Presidente da Câmara de Macedo como o de Bragança queriam manifestar-se neste sentido e assumimos que essa era a nossa posição oficial. Dissemos isto em Lisboa e dizemos em Bragança.
JN – Acha que o comboio poderia ser uma mais valia para a região, tendo em conta que a 50 km vai haver uma estação do TGV?
FV – É bom pensarmos nessa questão de haver uma estação de TGV a 50 km porque, se ela existir, é bom que Bragança tenha uma ligação. No ano de 1988 escrevi um livro sobre comboios e nessa altura estava decidido terminar com uma série de linhas portuguesas. Lamentavelmente a do Tua estava entre os projectos que a CP estudava extinguir e sempre protestei. Fechá-las é o empobrecimento da nossa geografia, da nossa terra, da nossa economia. Todo o mundo optou por uma rede ferroviária, Portugal saiu numa onda completamente diferente e hoje está num beco sem saída porque as linhas que em 1987/88 a CP tencionava fechar, foi um projecto que foi avante. Por isso, hoje voltar ao que era, infelizmente, é completamente impossível. Era um investimento terrível neste momento.