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Teatro no palco de Urrós

  • 24 de Agosto de 2011, 02:23

Teatro no palco de Urrós
Francisco Pinto
Freguesia do Urrós assistiu à recriação do Auto da Criação do Mundo, que vai dar lugar uma tese de doutoramento

A representação de um auto baseado no teatro popular transmontano serviu de base para uma tese de doutoramento a apresentar na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL).
O trabalho de investigação tentou “aprofundar e divulgar “ esta “peculiar” forma de representação, onde os cascos, ou seja, os guiões de toda a encenação podem ficar disponíveis para as gerações vindouras.
“Queremos perpetuar o teatro popular que, por vezes, só se encontra disponível na tradição oral e na memória dos mais velhos, sendo por isso necessário preservar este património imaterial”, disse David Casimiro, encenador/investigador FLUL.
Foram necessários meses de trabalho para levar à cena um auto que estava “perdido” há mais de 65 anos” e que mobilizou mais de meia centena de actores amadores para recriar uma tradição que é o retrato da memória viva da cultura nordestina.
A peça subiu à cena em Urrós, concelho de Mogadouro, e mobilizou toda a freguesia, bem como aldeias vizinhas para assistirem a uma das recriações “mais nobres” do auto popular denominado “Auto da Criação do Mundo”, numa representação de cerca de quatro horas de duração.
Personagens bíblicas como Adão e Eva; Caim e Abel; São José e Maria e o Menino Jesus foram recriados mediante a “mais pura das tradições”, numa encenação onde o Diabo “ganhou asas”.

Auto será perpetuado num registo digital com a duração de cerca de três horas

“Foi um trabalho longo e um pouco desgastante, mas valeu a pena. Uma experiência inesquecível”, sublinhou, Fernando Alves, um dos actores.
Nem as elevadas temperaturas que se fizeram sentir demoveram as centenas de pessoas que assistiram à recriação do auto, no improvisado recinto.
Os aplausos fizeram-se ouvir a cada trecho da encenação. Os actores deram a conhecer os seus dotes numa iniciativa que irá servir para a memória futura do teatro popular transmontano.
“Em palco estiveram meia centena de intervenientes e figurantes, tendo sido precisos oito anos de investigação para encenar e recolher todas as partes do auto, que levou um ano a ensaiar e juntou o saber das populações de várias aldeias de Trás-os-Montes”, frisou o David Casimiro.
Todos os pormenores foram levados a preceito, desde os trajes, passando pelos cavalos, que juntou todos os participantes num palco com mais de 50 metros de comprimento.
“Em palco estiveram actores, que foram protagonistas na peça representada há mais de 60 anos, os quais simbolizam a memória viva de uma tradição secular que agora é devolvida às populações. O casco original estava incompleto, sendo necessárias mais de 20 representações para lhe conferir a pureza original”, acrescentou o investigador.
Por seu lado, o presidente da Câmara de Mogadouro, Moraes Machado, disse que a representação do auto, significa a importância da reposição dos arquivos culturais do concelho, levados pelas chamas em dois incêndios, ao longo dos anos.
“Com a reposição de elementos que servirão a memória futura do concelho, a nossa história fica mais enriquecida”, acrescentou o autarca.
O trabalho resulta de uma parceria do município de Mogadouro, FLUL, Centros de Estudos de Teatro e o Centro de Estudos Populares, que ajudou a evitar “ perda de tão importante património”.
Agora todo o auto será perpetuado num registo digital com a duração de cerca de três horas.

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