“Os nacionais de países terceiros não vêm subtrair, vêm acrescentar”
Os refugiados tiveram que deixar para trás os países de origem, por causa de alguns problemas que, inesperadamente, acontecem a qualquer um. A Cruz Vermelha acolheu-os e está a ajudá-los a criar laços.
Martin Mimbolo Ndongo e Pauline Messina têm ambos 40 anos e são naturais dos Camarões. São casados há 24 anos e têm cinco filhos que tiveram que deixar para trás porque a vida se complicou.
Com a mulher sempre a seu lado, Martin veio para Bragança, através de um programa de acolhimento de refugiados da Cruz Vermelha. E é aqui que diz ter encontrado uma família. “Onde nós estávamos, pudemos conhecer o que é que é bom e o que não é. Depois de virmos para Portugal pudemos sentir o acolhimento e o amor do coração. Encontrei uma família na Cruz Vermelha”.
Nos Camarões, após a morte do pai, Martin teria que assumir a posição que este ocupava na aldeia, a nível social, cultural e religioso. Como não quis aceitar a responsabilidade, o que acabou por trazer vários conflitos, inclusive a morte de um amigo, que o queria defender, teve que sair do país, em 2014. Antes de aqui chegar, ao longo destes anos passou pelo Chade, pela Líbia e depois pela Itália. O amor do coração que agora sente só veio confirmar o que já pensava em relação aos portugueses. “Na Itália disseram-nos: ‘vocês vão para Portugal? Portugal é um país pequeno que está numa crise económica’. Lá onde eu estava, o meu coração dizia-me para partir e pensei: ‘mesmo que lá haja crise é para lá que vou’. Os portugueses são capazes de poder acolher muitas culturas”.
O casal, à semelhança do outro refugiado, está a ter aulas de português e já tem os papéis de permanência no país tratados. Brevemente, Martin, que tem 20 anos de experiência em decoração de interiores, no âmbito da construção civil, sonha trabalhar e ser autónomo. “A primeira coisa a fazer é a aprender a língua porque sem a língua não podemos fazer nada. Bem, mas quanto ao trabalho, quero-me apresentar a uma empresa, irei fazê-lo com prazer. Poderei aprender com a empresa como os portugueses trabalham. Poderei aprender com eles e melhorar”.
Pauline acompanhou o marido ao longo destes sete anos e não foi batalha para qualquer um travar. “Eu não trabalhava, era ele que se batia por nós. Na Líbia não podia trabalhar porque não podia sair de casa sozinha porque raptam as mulheres”.
A saudade que sente pelos filhos é grande, até porque quando deixaram os Camarões um deles era um bebé de colo. Ainda assim, agora encontrou alguma tranquilidade. “O acolhimento é verdadeiramente bom, até agora. É isto que nos faz fortes. Nós sentimo-nos bem, sentimo-nos à vontade, desde que estamos aqui sentimo-nos à vontade”.
Perante uma nova vida, quer assumir também novas responsabilidades. “Não sei o que posso fazer porque não sei fazer nada em específico, mas posso aprender qualquer coisa. O que me apresentarem eu posso fazer, desde que o meta na cabeça”.
MD Alamgir tem 38 anos, é natural do Bangladsh e é o terceiro refugiado que veio para Bragança. Saiu do país de origem porque enfrentava problemas familiares. Competia-lhe gerir o seio familiar mas, como as condições económicas não eram as melhores, foi contraindo vários empréstimos. O refugiado acabou por deixar a mãe e a irmã para trás porque começou a sofrer ameaças de morte das pessoas a quem tinha pedido dinheiro.
Passou pela Líbia e depois pela Itália. Portugal foi um destino ao acaso mas, afinal de contas, uma boa escolha. “Os profissionais da ONU e da Cruz Vermelha que estavam connosco em Itália perguntaram-me qual era o destino final que eu gostaria de ter. Como no Bangladesh se fala muito de Portugal, por causa do Cristiano Ronaldo, já tinha esta ideia, mas também já tinha ouvido dizer que era um país acolhedor. De qualquer forma, foi uma mera casualidade que aqui me trouxe. Além disso, também ajudou a pesar na decisão o facto de eu saber que outros nacionais do Bangladesh estão em Portugal e estão bem. Acho que foi uma boa decisão. Sinto-me bem acolhido. É um sítio tranquilo e toda a gente que está à minha volta trabalha para me ajudar”.
Neste momento, o refugiado também frequenta as aulas de português e já está a fazer um estágio pré-laboral. “Neste momento, a minha intenção, a médio-longo prazo é permanecer em Bragança. Sinto-me bem acolhido e estou preparado para enfrentar diferentes trabalhos. A longo prazo gostava de ser autónomo, tendo a minha própria empresa. Ainda não sei especificamente em que área mas tenho esse sonho. Entretanto, quero continuar a aprender o português e estou satisfeito com todo este processo”.
O programa de acolhimento vai durar um ano e meio. Duarte Soares, presidente da delegação de Bragança da Cruz Vermelha, mostra-se satisfeito pela forma como está a decorrer o processo de ambientação. “Passado um mês, ainda é apenas um mês, podemos fazer um balanço francamente positivo. Avançámos logo para a execução dos documentos que eram necessários à sua estadia. Um deles já está a fazer um estágio pré-laboral e os outros dois também começaram brevemente. A nossa estimativa é que num período de seis meses se consigam resolver todos estes desafios para que, quando não estiverem dependentes de nós, estejam preparados para ficar na cidade. Os nacionais de países terceiros vêm acrescentar, não vêm subtrair nem por em causa a segurança de ninguém”.
E é precisamente por virem acrescentar que o projecto vai continuar. Assim, brevemente chegarão a Bragança mais três refugiados, desta vez do Egipto.
Os migrantes estão instalados no Colégio de Santa Clara e o seu acolhimento resulta de uma parceria entre a Cruz Vermelha e a Congregação das Servas Franciscanas Reparadoras de Jesus Sacramentado.
Escrito por Brigantia