Serviços de apoio domiciliário atrasam institucionalização dos idosos e são a “família” dos mais isolados
Nazaré Teixeira vive sozinha, em França, no concelho de Bragança. As pernas já não ajudam a estar encostada ao fogão a preparar as refeições… Por isso entregou as pequenas tarefas às funcionárias do Centro Social e Paroquial da aldeia. Diariamente recebe o almoço… más é muito mais do que isso. “São boas meninas. São uma companhia… muito educadas. Trazem-me o almoço e dão-me carinho, que já sou velha. Quero-lhe muito e elas a mim”.
Esta ajuda permite-lhe continuar em casa. Com 85 anos, a idosa ainda não pensa em lares. “Por enquanto não. Tenho que pagar onde está o meu marido e a reforma é pequena, não dá para os dois lados. É melhor estar em casa porque faço o que quero e, se calhar, no lar não tenho tanto carinho como me dão aqui”.
O Centro Social e Paroquial Nossa Senhora da Ponte também chega a casa de Patrocínia Rosa Silva. Vive sozinha em França e há 4 meses saiu debilitada do hospital. A filha quis levá-la para o estrangeiro mas sair da aldeia não era opção. Por isso, arranjou os cuidados e a atenção que precisava. “Falei com a minha filha. Ela estava aqui mas ia-se embora e deixava-me aqui tolheitinha… eu não quis ir com ela, mas ela queria levar-me e está contrariada em ver-me aqui sozinha. Se não fosse isto (apoio domiciliário) estava aqui sozinha”.
A idosa de 90 anos também assegurou vários serviços porque já pouco consegue fazer. “Fazem-me tudo. Vêm-me a limpar a casa, a dar-me banho, mudam-me a caminha e trazem-me a roupa lavada. Isto é muito importante porque eu já não posso fazer estas coisas. Não posso estar mais contente”.
O centro presta os serviços a 10 utentes mas podiam ser mais. Contudo, Elisabete Oliveira, que ali trabalha desde Maio, diz que os idosos estão até ao limite para contratar os serviços porque não se querem sentir inúteis. “Isto depende muito dos idosos. Eles estão até à última fase para contratar. Inicialmente começam com uma limpeza de roupa, depois de casa e, só depois, vem a alimentação. Podíamos ter mais utentes e não o temos”.
A viagem leva-nos agora a Moredo, também em Bragança… Gaudência Monteiro tem 88 anos e alegria não lhe falta. Não parou quieta enquanto foi entrevistada, mas a genica já não dá para tudo. Ainda cozinha, mas a limpeza da casa e a lavagem da roupa deixa para quem a pode ajudar. E que grande ajuda é. “São o Deus do céu. Já pode ver como seria eu sozinha. Já tenho ali a roupa lavada, já mudei a cama… depois trazem-ma passada a ferro. É uma grande ajuda”.
Recorreu ao apoio domiciliário do Centro Social de Salsas. Vive com o marido com quem está casada há mais de 60. Não têm filhos e, por isso, são a companhia um do outro. Amor e carinho não falta por ali e nem as funcionárias deixam. “Elas são muito queridas e eu também o sou para elas. Elas abraçam-me… são muito meigas, muito tudo. Ainda me fazem mais do que o que podem, mas também não são nenhumas escravas”.
As funcionárias do Centro Social de Salsas já conhecem os cantos à casa. Irene Miranda já se sente parte da mobília e gosta do que faz. “Gosto muito de fazer isto, de conversar com eles. Aprendemos muito e eles aprendem connosco. É bom. Eu gosto o que faço. Se não fôssemos nós estavam sozinhos, completamente”.
O apoio domiciliário é o descanso para muitas famílias que estão longe dos pais e sabem que há alguém que cuide deles, diz a directora do centro, Cidália Eiras. “Alguns estão sozinhos, completamente. No caso de outros, os filhos estão no estrangeiro ou no litoral e não têm retaguarda e nós somo-lo. Todos os dias ou quase todos, vamos ao domicílio e vemos e estamos presentes”.
O Centro Social e Paroquial de São Roque, em Salsas, presta apoio domiciliário a 25 idosos das freguesias de Sendas, Serapicos e Salsas.
O conforto de continuar a fazer vida em casa, com qualidade e em segurança, é, possivelmente, o maior sonho de quem chega a velho. Muitos vão conseguindo com esta ajuda.
Escrito por Brigantia