População não acredita no regresso do comboio com a implementação do Sistema de Mobilidade do Tua
“Senti muita tristeza. Levam-nos tudo daqui. Gostava que voltasse. Voltava a andar, de vez em quando… já tenho saudades”, disse Maria Madalena Almeida, habitante de Frechas, em Mirandela.
De acordo com o Sistema de Mobilidade do Tua vai voltar. A viagem está planeada entre a Brunheda, em Carrazeda de Ansiães, e Mirandela. Os outros quilóemtros de linha, que ficaram submersos com a barragem, entre a Brunheda e Foz-Tua, iriam fazer-se de barco. Mas tantos atrasos deixam a população sem grande esperança. “Não, pelo menos eu, não acredito nisso”, disse Constantino Guedes, que considera que tudo se trata de “política”. “O Governo está interessado em desenvolver alguma coisa? Não, não está. Agora, o comboio aqui para quê, para ir só até à Brunheda? Devia ir até ao Tua e ter ligação com a linha do Douro”, rematou. “Não temos hipótese de mandar em nada. O comboio, até à Brunheda, e, depois, os passeio de barco, dali até ao cais da barragem… era bonito. Mas o projecto, na minha vida, não será implementado”, lamentou Maria Delfina.
Ramiro Raimundo lembra-se bem dos tempos em que o comboio circulava no Tua, não tivesse sido ele maquinista durante seis anos nessa linha. Agora com 84 anos, resta a saudade. Lembra-se bem do movimento que o comboio trazia à região, devido aos turistas. Mas já não acredita que volte. “Ao fazer a barragem a linha ficou inundada, por isso acabou. Então, o turismo, que vinha ver a linha do Tua acabou. Aos fins-de-semana tínhamos aí dias de 200 passageiros que vinham almoçar. Iam ao Tua e do Tua a Mirandela. A linha precisava de uma grande renovação. Era preciso muito cuidado, porque com as chuvas, os temporais, havia desabamento de barreiras, de pedras, tinha que ir sempre vigilante”.
Os municípios afectados, Mirandela, Vila Flor, Carrazeda de Ansiães, Alijó e Murça continuam a aguardar. Em causa estará a complexidade burocrática dos processos, que envolvem entidades regionais e nacionais, públicas e privadas, como a CP, a Infra-estruturas de Portugal, o Instituto da Mobilidade Terrestre, a EDP e a Agência de Desenvolvimento Regional do Vale do Tua, que integra estes territórios. O presidente da entidade, Pedro Lima, garante que o idealizado é para ir para a frente. “Eu acredito que só há uma solução: o Sistema
de Mobilidade do Tua ser uma realidade. Porque, senão, será muito complicado explicar a todos os envolvidos como é que há uma barragem que faz aproveitamento hidroelécrito, que depende de uma DIA, que específica o SMT, mas este não funciona e a barragem funciona”.
Em 2006 surgiu o Movimento Cívico pela Linha do Tua. Sempre se manifestaram contra o fechoda linha e a construção da barragem, mas assim que percebeu que o projecto ia avançar, já só queria que fosse dada a contrapartida às populações. Daniel Conde, fundador do movimento, não tem dúvidas que a culpa do plano ainda não ter avançado é do Governo. “O culpado do Plano de ‘Imobilidade’ do Tua ainda não estar implementado só tem um nome, é o Estado português. É o Estado que continua a boicotar a reabertura da linha do Tua”.
Até agora a linha ainda não foi licenciada, mas esse não é o único entrave para o SMT avançar. De acordo com o activista, também o comboio turístico, coberto por uma tenda branca, na estação de Mirandela, “não está homologado”.
A parte turística do projecto foi concessionada, em 2016, ao empresário Mário Ferreira, proprietário da Douro Azul. Recebeu 10 milhões de euros para investir mas o comboio está guardado, desde 2018, na estação de Mirandela e o barco atracado na Brunheda. Em 2021, o empresário mostrou-se interessado em desistir do investimento. Contactado pelo Jornal Nordeste e pela Rádio Brigantia para perceber em que situação se encontra o projecto e se vai realmente desistir, não respondeu até ao momento.
Neste momento, para que o Sistema de Mobilidade do Tua se transforme em realidade, já foi feito um investimento de 17 milhões de euros, ao longo dos últimos cinco anos, nomeadamente em obras de requalificação e de segurança da linha.
O sistema depende de uma Declaração de Impacte Ambiental, que previa a sua entrada em funcionamento, previamente a haver o licenciamento do aproveitamento hidroeléctrico. Mas isso não aconteceu.
Escrito por Brigantia