A frota do clero
Valeria a pena convidar os mais “moralistas” a viverem com o salário mínimo durante um ano, para lhes perguntarmos, no final, se um carro de 45 mil euros pode ser apelidado de outra forma…
Numa altura em que centenas de agregados familiares vivem o drama do desemprego e em que os pedidos de ajuda às instituições de solidariedade social continuam a aumentar, nem sequer vale a pena discutir este assunto. Mas inspiremo-nos nas recentes atitudes do Papa Francisco, “um príncipe pobre no luxo do Vaticano”, como escreveu o jornal brasileiro “O Globo”. “Uma pessoa, refere o jornal argentino La Nación, “que recusava ser conduzido num carro com motorista, enquanto a maioria da população andava a pé ou de transportes (…) afastava luxos e protagonismos e distanciava-se do centro do poder, evitando, sempre que podia, deslocar-se ao Vaticano”.
Um Papa que ainda há pouco pediu aos bispos argentinos para não assistirem à inauguração do Pontificado, e darem aos pobres o dinheiro que gastariam nas viagens para Roma.
Esta visão diz tudo sobre aquilo que se espera de um pároco, de um bispo, de uma cardeal ou papa. E nos tempos que correm pede-se humildade e ponderação. Infelizmente, não é só o bispo de Bragança-Miranda que tem um carro de luxo. Há vários sacerdotes que têm carros que custam 50, 60 e, até, 100 mil euros. O argumento é quase sempre o mesmo. Têm muitas paróquias, fazem muitos quilómetros, isto para não falar das sucessivas viagens a Fátima ou Lisboa. Ora, quantas profissões não há, em que se percorrem centenas de quilómetros em carros de 10 ou 15 mil euros? Perguntem aos professores colocados a horas de distância, aos vendedores que percorrem o distrito todos os dias e aos profissionais da distribuição. Mas nem precisamos de sair da esfera do clero para provar que nem todos preferem o luxo na hora de escolher um carro. Perguntem ao pároco de Ousilhão se é menos padre por andar de Ford Fiesta.
Para os que justificam a escolha dos Mercedes, BMW ou Volkswagen com as longas e repetidas viagens, apetece imaginar os que lhes diria o Papa Francisco. Não viajem tanto para Fátima, Lisboa ou Porto, canalizem esse dinheiro para os pobres, em gestos de solidariedade e caridade, e verão que não precisam dos tais topos de gama. Nem mais. É de Homens como este que a Igreja precisa. Temos Papa, finalmente. Que Deus o proteja.
João Campos