Delegação da Liga Contra o Cancro vai nascer em Bragança
O responsável fala, ainda, sobre as dificuldades vividas pelos doentes oncológicos que são obrigados a percorrer dezenas de quilómetros para irem fazer tratamentos ao Porto.
Jornal Nordeste (JN) – Porque é que se decidiu realizar uma caminhada cor-de-rosa pela primeira vez em Bragança?
Renato Martins (RM) – Sim, é a primeira vez que se faz uma iniciativa deste género aqui, pois temos tentado sensibilizar esta comunidade para dar apoio a esta causa, que é a luta contra o cancro. A Liga tinha todo o gosto de ter aqui em Bragança uma unidade de apoio directa e o objectivo desta caminhada é mesmo esse, ou seja começar a angariar fundos, que depois ficarão canalizados para dar um apoio mais efectivo à população transmontana.
(JN) – O dinheiro angariado nesta caminhada será para a constituição de uma delegação aqui em Bragança?
(RM) – Sim. Neste momento nós estamos a criar uma rubrica relacionada com a angariação de fundos que vai sendo feita em cada uma das comunidades. Essa verba ficará afecta a essa rubrica e depois se ela começar a ter alguma robustez, pensar-se-á em fazer-se essa delegação de Bragança, que irá começar por uma unidade de psicooncologia, mas depois poderá estender-se a outro tipo de valências, nomeadamente a formação, educação para a saúde e assistência social. Actualmente, já existem sinergias com a Unidade Local de Saúde do Nordeste e a Santa Casa da Misericórdia de Bragança. Por isso, eu penso que a delegação será uma realidade num curto espaço de tempo.
(JN) – Mas dentro de quanto tempo se pensa abrir a delegação?
(RM) – Penso que será possível abrir ainda este ano. Mas depois a questão prende-se com o facto de Bragança ser capaz de tornar essa delegação auto-sustentável, porque o núcleo do Norte, onde esta delegação ficará afecta, não tem capacidade para poder abrir uma unidade que seja financiada pelas verbas do núcleo central. Por isso, a delegação terá sempre de ser auto-financiada, daí a lógica destas angariações, no sentido de se criar algo que depois tenha pernas para andar e que se mantenha aberto durante muitos anos.
(JN) – Da realidade que conhece de Bragança, quais são as principais dificuldades que os doentes oncológicos sentem?
(RM) – É fundamentalmente a distância. Sempre que vão aos tratamentos ao Porto, nós tentamos apoiá-los através da nossa unidade de acolhimento. Há muitos doentes de Bragança que têm de fazer ciclos seguidos de quimioterapia e de radioterapia e que, há uns anos atrás, tinham de deslocar-se todos os dias, o que é uma dinâmica muito desgastante. Agora nós tentamos acolhe-los nas nossas unidades, pois temos um espaço onde podem pernoitar gratuitamente e onde têm transporte para ir às consultas e depois regressar. Além disso, têm direito ao apoio social que também prestamos em termos de aquisição de medicação, suplementos alimentares, próteses capilares e mamárias. Nós gostaríamos de começar a dar esse apoio cá em Bragança para que as pessoas não tenham de ir ao Porto.
(JN) – Mas esse problema da distância, que obriga a deslocações, pode prejudicar o período de convalescença?
(RM) – É um incómodo que acaba por retirar qualidade de vida aos doentes. Há todo o interesse que fiquem internados, sobretudo quando se fala em sessões de quimioterapia, que tem efeitos secundários por vezes bastante exacerbados, e, por isso, é importante que o doente está estabilizado o máximo possível e as viagens podem contribuir para que fiquem emocionalmente destabilizados, potenciando o desenvolvimento de perturbações ansiosas, depressivas e um mal-estar geral mais acentuado.