“Sinto-me de coração com o distrito de Bragança”
Jornal Nordeste (JN) – Muito recentemente o cabeça de lista do Partido Socialista dizia que é um erro as pessoas daqui votarem nos partidos mais à esquerda, tanto o Bloco de Esquerda como o CDU, pois não têm hipótese nenhuma de eleger deputados. Concorda com isto?
Manuela Cunha (MC) – Está claro que não, até porque o que acontece é que aqueles que foram eleitos pelo distrito de Bragança não deram voz ao distrito na Assembleia da República. Os eleitos da CDU, tanto os deputados do PCP como de Os Verdes, deram voz ao distrito. Fizemos a diferença na Assembleia da República. A Linha do Tua nunca foi a plenário por iniciativa de mais ninguém sem ser pelos Verdes. Por isso, o voto útil é nas forças políticas que dão voz ao distrito.
JN – Tendo em conta o cenário de crise económica em que o País está mergulhado, que políticas defende enquanto cabeça de lista para a região de Bragança?
MC – Nós consideramos que esta região tem um grande potencial produtivo, nomeadamente na agricultura. A castanha, o vinho, a cereja, a batata, a carne, o leite. O distrito tem uma potencialidade enorme e o país precisa desta produção.
A floresta também tem uma potencialidade enorme. Por isso, nós achamos que é necessário estimular a actividade privada neste distrito com investimento público.
Temos, ainda, o ferro em Torre de Moncorvo, os recursos turísticos e paisagísticos, e já falámos na Linha do Tua, mas poderíamos falar do Parque Natural de Montesinho, que é um tipo da natureza muito procurado.
JN – A energia em Portugal é a mais cara da Europa. Para reduzir a factura contribui o aproveitamento hidroeléctrico, uma política que não é muita bem vista pelo partido Os Verdes…
MC – Esse tem sido o argumento do governo. Nós somos, de facto, dependentes do ponto de vista energético em 80 por cento daquilo que consumimos, 60 por cento dos quais é petróleo que vem directamente para o sector do transporte rodoviário. O que nós defendemos é reduzir o défice energético com menores custos ambientais, reduzindo a importação de petróleo. Devemos, então, fazer tudo para estimular o transporte ferroviário que é extremamente económico do ponto de vista energético.
JN – Mas o transporte ferroviário não chega a todo o lado…
MC – Não chega porque se continuam a encerrar linhas e não se criam novas linhas. É muito barato construir uma linha ferroviária. Aliás, a CDU defende que o distrito de Bragança tem de ter um transporte ferroviário moderno.
Nós consideramos que uma ligação moderna do Douro, que ligue Bragança a Espanha, é fundamental, porque há uma rede ferroviária em Espanha que nos liga à Europa, pelo que seria também uma forma de desencravar este distrito.
“Consideramos que uma ligação moderna do Douro, que ligue Bragança a Espanha, é fundamental, porque há uma rede ferroviária em Espanha que nos liga à Europa, pelo que seria também uma forma de desencravar este distrito”
JN – Como é que os Verdes vêem o investimento na construção da A4, IP2 e IC5?
MC – Estas estradas vêm com vinte e tal anos de atraso.Bragança esteve isolado durante este tempo todo. Além disso, a promessa inicial de que as portagens não seriam colocadas em zonas onde não houvesses alternativas tem sido quebrada. Por isso, a nossa preocupação é que a A4 venha a ter portagens e Bragança fique outra vez sem alternativa.
JN- Ao nível da saúde perspectiva-se a criação de uma Unidade Local de Saúde que está suspensa devido às eleições. Esta será uma medida positiva para o distrito?
MC – À partida, a ideia de articulação entre hospitais e centros de saúde é uma proposta que o CDU não recusa. Temos defendido isto em todo o País. Há um grande problema de cuidados básicos na saúde, é fundamental desenvolver os cuidados de proximidade, porque fazendo-se mais prevenção detectam-se as doenças a tempo e reduzem-se os custos médicos.
“Em Bragança encerraram escolas com mais de 20 alunos e quando se encerra uma escola mata-se uma aldeia”
JN – Na área da Educação, a CDU defende a manutenção das escolas do 1º Ciclo. Justifica-se na região haver tantas escolas primárias?
MC – Encerraram-se cerca de 200 escolas, que consideramos que são muitas. A CDU não defende a manutenção de escolas com, apenas, um aluno, porque não é bom para a criança. A diferença é que em Bragança encerraram escolas com mais de 20 alunos e quando se encerra uma escola mata-se uma aldeia.
JN – Uma das críticas que mais se ouve no distrito de Bragança é o facto de haver cabeças de lista que não são da região, como é o caso da CDU. Até que ponto considera que isso pode causar o distanciamento das pessoas?
MC – Eu costumo dizer: “Mais vale um bom pai adoptivo para um filho, do que um pai biológico que mal-trata esse filho e não lhe cria as condições para ele crescer”. Neste caso, sinto-me de coração com o distrito de Bragança. Trabalhei durante estes dois anos para dar voz ao distrito de Bragança.