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“Vai haver fome!”

“Vai haver fome!”
  • 6 de Maio de 2011, 07:53

Corria o ano de 1939, quando Manuel da Silva, mais conhecido por Borralho, decidiu rumar a Bragança. Procurava fugir à pobreza que lavrava um país esfaimado, movido pela esperança de arranjar um trabalho que lhe permitisse mudar um presente de dificuldades extremas, que o flanqueavam um pouco por todo o lado. A oportunidade surgiu naquelas conversas de passa palavra, onde foi veiculada a informação de que “homens precisam-se” na região de Bragança para a construção de um troço rodoviário. E assim aconteceu… Borralho fez-se à estrada, descalço. Uma autêntica epopeia de 14 dias, acompanhado só pela fome. Nas tentativas falhadas de dormir ao relento, o luar tratava de colocar predadores de topo em alerta máximo para as suas caçadas nocturnas. E numa época em que os lobos com as suas alcateias, abundavam em número, a coragem era o requisito mínimo para uma criança se aventurar sozinha por caminhos entre florestas e montanhas.
“Eu tinha 12 anos, quando saí de Guimarães para vir trabalhar na estrada de Gimonde – Guadramil. Vim a pé, 14 dias, alguns a chover”, começa por revelar Borralho, um exímio contador da sua história, cujo início remonta há 72 anos. “Na altura, havia muita fome e passavam-se dias, semanas, sem provar um cibo de pão. Ainda chorei muito por aí acima quando fugi à minha mãe”, relembra, algo nostálgico. “Comecei em Gimonde, descalço, na estrada. Foram 27 quilómetros feitos à mão por nós e foi lá que conheci a mulher que tenho hoje”, faz questão de frisar.
Tendo completado, a 25 de Abril, a generosa idade de 85 anos, Borralho traça uma analogia entre aqueles tempos e a actualidade, recordando o 25 de Abril e comentando a presente conjuntura de crise económica e social.

“Alguns sabem quem matou Sá Carneiro, outros podiam descobrir, mas não lhes interessa”

“Uma vez, em Famalicão, o Salazar fez um discurso em que disse: da fome não vos livro, mas da guerra sim. Tinha eu sete anos, ou seis, e calhou estar lá com duas vaquitas para a feira”, recorda, aquela que é uma das suas primeiras memórias. “Escusava era de ser tão poupado! O Salazar morreu, praticamente, sem gastar um tostão. Havia muito dinheiro e ouro! Devia ter dado mais ao povo porque passou-se muita fome, muita fome! Depois de 74, começou a melhorar”, continuou.
Mas foi sol de pouca dura, já que o Fundo Monetário Internacional (FMI) entrou em Portugal logo na década de 80. Um problema que se ficou a dever, de acordo com o entrevistado, aos “incapazes” que se agarraram ao poder. “Deviam ter ido para lá homens com pulso, capazes de tomar as rédeas e dizer: é por aqui que se corta”, defende. Como defende, também, uma importante figura de Estado cujo fim trágico chocou o país. Ainda sem uma explicação plausível e em circunstâncias nunca completamente esclarecidas, o avião que transportava Francisco Sá Carneiro caiu sobre Camarate a 4 de Dezembro de 1980. “Essa morte foi muito mal contada e não se passou conforme correu por aí. Isto tem que se dizer! Agora, que houve aí alguma coisa, isso houve”, declara o octogenário. “Não sei se foi furo nos pneus, se foi furo no ar ou no chão, o que falta é adivinhar quem foi”, ironiza.
“Passado tanto tempo, como é que se justifica ainda não se ter descoberto ao certo quem foi ou porquê. Quem fez o mal, está dentro do sistema e, depois, encobrem-se uns aos outros”, explica.

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