Roscas leiloadas em Talhinhas
A confecção das rosquilhas, talassas e da afamada rosca ocupam as mulheres da aldeia, que dão uma ajuda preciosa para a confecção do Ramo, que é leiloado no dia de Páscoa. O dinheiro angariado com a doçaria reverte para a realização da festa em honra do Divino Senhor da Santa Cruz, em Agosto.
Lucinda Relvas conta que a tradição da Festa do Ramo já é muito antiga. Este ano, os seus filhos são mordomos, pelo que esta habitante de Talhinhas não poderia deixar de ajudar a confeccionar os doces. As suas especialidades são as rosquilhas e as talassas, duas iguarias que se preparam com ovos e farinha. “Depois de amassados são fritos em óleo ou em azeite”, explica Lucinda Relvas.
Na semana anterior à Páscoa esta popular mostra a doçaria que já confeccionou, mas não se atreve a dizer o número certo de doces que são confeccionados por esta altura. “Fazemos uma quantidade enorme”, acrescenta.
Uns metros mais à frente encontramos Maria Martins, de 65 anos, que é a responsável pela confecção das afamadas roscas que “vestem” o ramo.
A quantidade é grande, por isso Maria amassa a farinha, os ovos, o fermento, o azeite e o sumo de laranja no dia anterior. No dia seguinte, bem cedo, acende o forno, corta as roscas, que são cozidas no tradicional forno a lenha.
“Sempre me lembro de fazer roscas. Antigamente, fazia só para casa, porque na altura da Páscoa aqui toda a gente tem roscas em casa. Ultimamente tenho feito para o ramo, porque é uma tradição aqui na aldeia”, conta Maria Martins.
População de Talhinhas une-se em torno da Festa do Ramo para fazer a festa ao santo em quem depositam a sua fé
Os tempos mudaram e a tradição também foi evoluindo ao longo dos tempos, mas em Talhinhas ainda há quem se lembre dos tempos em que os mordomos cultivavam lentilhas para amealhar dinheiro para conseguirem fazer a festa ao Divino Senhor da Santa Cruz. “Como o santinho era pobre, os mordomos começaram a fabricar lentilhas e entre a mocidade nova apanhavam-nas e faziam aquele dinheiro para lhe fazer a festa”, conta António Martins, de 73 anos.
Nesta altura a aldeia tinha muita gente, mas a juventude emigrou e é nas épocas festivas que se vê mais movimento em Talhinhas. Nas férias da Páscoa as crianças vão dando alguma vida à localidade, mas António Martins afirma que “a juventude é pouca”.
A data da Festa do Ramo também foi alterada. O Ramo costumava ser leiloado no Domingo Magro, mas Lucinda Relvas afirma que a alteração da data se deveu ao facto de alguns mordomos só poderem estar na aldeia no dia da Páscoa.
O leilão é feito no largo da aldeia, junto a uma fonte antiga recuperada, para onde é transportado em cima de um tractor, devido ao peso. A população reúne-se à volta do Ramo e quem mais dinheiro oferecer pelos doces é quem os leva para casa. A intenção é oferecer quantias generosas para ajudar à realização da festa mais importante da aldeia.
A maioria das pessoas que rematam a doçaria são da aldeia, mas também há pessoas da região que se deslocam a Talhinhas para participar na Festa do Ramo.
Quem passar por esta aldeia pode visitar, ainda, a igreja matriz, e a capela da Santa Cruz. Na memória do povo permanece, ainda, a capela de S. Pedro, que existia num cabeço, mas contam os antigos que este santo terá sido trocado por um “almude de vinho”.
Da história desta terra destaque, ainda, para uma senhora ilustre, de seu nome Cândida Florinda Ferreira, que foi a primeira mulher portuguesa a obter as insígnias doutorais.