A Cidade e as Serras
“Portugal é Lisboa e o resto é paisagem” é uma afirmação estafadamente atribuída a Eça de Queirós que, ao longo de décadas, se foi apurando enquanto instrumento de estímulo da auto-comiseração nacional. Considerarmo-nos os parentes pobres e esquecidos começou por se assumir como uma limitação, mas acabou por se revelar um ninho de potencialidades quase reconfortantes. Porque é certo que quem muito se queixa fica com pouco tempo para reflectir sobre a sua condição e, consequentemente, continuarão a sobrar-lhe razões para continuar a queixar-se, desculpabilizando-se. E cada vez o fará melhor.
Sabermo-nos apoucados por esse estigma chamado interioridade – que é geograficamente inevitável – reveste-nos de um ânimo que nos coloca acima de quaisquer outros portugueses com melhores recursos endógenos ou maior acesso a infra-estruturas fundamentais. Porque nos sentimos estranhamente fortalecidos pelo deficitarismo militante com que enformamos a nossa existência: não temos, não nos dão, não podemos. Vitimizamo-nos e daí retiramos a força com que persistimos na nossa fraqueza. Num muito eficaz efeito de espiral desresponsabilizadora que nos justifica perante aqueles que nos avaliam pelas falhas e nos julgam pelas atitudes.
Eça de Queirós escreveu, de facto, em “Os Maias”, que “Lisboa é Portugal. (…) Fora de Lisboa não há nada. O país está todo entre a Arcada e S. Bento”. Colocando as palavras na boca de uma personagem incomodamente lúcida, e por isso sempre olhada de forma condescendente, Eça atribuiu a esta afirmação um valor distinto daquele que lhe foi colado pelo tempo e pelas conjunturas.
Embora as cidades constituíssem, então, para a literatura realista, na segunda metade do século XIX, um objecto de análise das mutações sociais e dos fenómenos políticos, em causa não estava a desvalorização da “província” enquanto espaço eventualmente debilitado pela ausência de estruturas ou equipamentos urbanos. Pelo contrário. Em grande parte da sua obra, Eça de Queirós carrega nos tons com que contrapõe os vícios e a decadência moral da cidade aos valores da genuinidade do campo. Em “A Cidade e as Serras”, a personagem Jacinto, radicada numa vida de sofisticado luxo ocioso na cosmopolita e asséptica Paris, vê-se – por uma pirueta do destino – desterrado nas serras de Tormes. Despojado do conforto conhecido, mas finalmente capaz de se deleitar com algo tão prosaicamente autêntico como uma travessa a transbordar de arroz com favas, “longe de amarguradas ilusões e de falsas delícias, trilhando um solo eterno, e de eterna solidez, com a alma contente”, renega a Cidade como “a maior ilusão”.
Num percurso inverso, Artur Corvelo, na obra “A Capital”, enfastiado da realidade previsível de Oliveira de Azeméis, tem como ambição máxima instalar-se na estonteante Lisboa. Aí pretende triunfar como poeta, mas a capital acabará por se revelar um antro de hipocrisia e de oportunismo, onde as relações humanas põem a nu os contornos de falsidade em que assenta a miséria do vazio moral: “Cheio de tédio, sentindo-se mais só nas ruas vazias de onde o nevoeiro afastara a gente, teve um desejo de se embebedar, aquecer o corpo e o espírito com genebra, rolar-se no deboche.”
Quando a personagem João da Ega afirma, em “Os Maias”, que “Lisboa é Portugal”, Eça de Queirós não pretende fazer esquecer o resto do país, mas, sim, rasar – de forma caricatural – a sua, a nossa, pátria. Olhando-a com a lucidez impiedosamente crítica de quem a vê de fora, como um organismo estigmatizado, por ter vivido longos anos em Inglaterra e Paris, símbolos, na sua obra, de cosmopolitismo esclarecido e liberal. “Então ignoravam que esta raça (…) criada por esses saguões da Baixa, educada na piolhice dos liceus, roída de sífilis, apodrecida no bolor das secretarias, arejada apenas ao domingo pela poeira do Passeio, perdera o músculo como perdera o carácter, e era a mais fraca, a mais cobarde raça da Europa?”
Curiosamente, a colagem oportunista do pensamento de Eça de Queirós à convicção de que para lá da capital pouco existe de Portugal continua a fazer-se sentir na política conjuntural do país. E é essa mesma capital – na figura tutelar do terreiro do paço e áreas quejandas – que lança os habitantes do interior às suas próprias urtigas. Porque, para os senhores da capital, a densidade populacional de uma região funciona como condicionante das execuções no domínio das acessibilidades e das infra-estruturas. Assim, existem os territórios em que “vale a pena apostar” – porque pululam de eleitores – e os outros, aqueles que na fúria eleitoralista são prometidos à glória de um mapa redentor, mas que acabam por ser cilindrados pelos pragmatismo dos interesses da agenda política.
A “paisagem” a que se referia Eça de Queirós surge como um símbolo daquilo que é olhado de longe. Um território quase exótico. Bonito para um fim-de-semana rústico, mas pouco levado a sério. E, porque eleitoralmente irrelevante, remetido às suas próprias urtigas.
Paula Romão