Região

Entrudo em Bragança

  • 16 de Março de 2011, 08:56

Este ano o Entrudo chegou mais cedo em Bragança, o grande bródio ocorreu na sessão da Assembleia Municipal. Vou contar. O estrondoso e picante acontecimento atingiu o pináculo quando uns rapazes envergando túnicas e máscaras cor de laranja, uns atrás dos outros de mãos dadas cantarolaram com a boca cheia: a abstenção, a abstenção está no nosso coração. O espanto subiu ao rosto do proponente do empréstimo a contrair, pérolas de cólera em forma de suor agarraram-se às testas dos embaraçados laranjas experientes e donos do sentido das responsabilidades. O ajudante de gonfaloneiro da rapaziada gritava e girava ao modo de Arlequim no meio da bailação, dizendo estarem ali para desempenhar a sempre difícil missão do nivelamento por baixo, mais a mais, a cidade já possui muitos luxos, eles são conhecidos pela sua contenção, daí só gostarem de butelos. Os opositores deliravam não de delírio sim de alegria ao verem gestos vazios de razão e escutarem aquelas palavras, sem cruzes na boca logo se adiantaram a fim de ao seu modo também participarem na festarola até porque não sendo eles pafós, sabiam dançar sambas e modinhas de forma eloquente e marcial. Na bancada laranja os familiarizados com o passado abanaram a cabeça em sinal de reprovação enquanto reviam os tempos de oposição, outros menos dotados de memória falavam aos botões do casaco, os abstencionistas-oposicionistas-apressados-espumados continuaram no salsifré demonstrando serem bons praticantes de músicas assobiadas e sopradas pelo azedume e a tentação. A teatralidade das danças não enganava ninguém, os dançarinos não pararam para pensar um cisco de tempo, no remate da dança das paixões a proposta foi chumbada. Os socialistas espectadores estupefactos estalejaram as mãos em sinal de contentamento, os mini-mini-minoritários aproveitaram a deixa e apesar de emagrecidos em votos não deixaram de levantar a mão a sinalizar o voto contra. O jejum tinha acabado, dali para a frente, a frente comum englobando os recalcitrantes de cor laranja, mais os socialistas pode vir a ser reeditada, só custa na primeira vez. Depois quem faz um cesto, faz um cento. O Entrudo chegou mais cedo a Bragança. No dia vinte de Fevereiro estive em Bragança, amigos meus do partido de Sócrates exibiam amplos sorrisos enquanto contavam com pormenores a festa entrudeira, outros amigos laranjinhas corroboraram compungidos o festim da asneira, escorado nas vaidades e necessidades de protagonismo. Este género de actos em direcção ao precipício têm ocorrido noutras terras, no mandato passado o Entrudo teve lugar no concelho de Ourém, território governado pelo PSD há décadas. Os soletradores entraram em conflito aceso com escrevedores, na noite das eleições todos tinham perdido, os socialistas ganharam pela primeira vez em trinta e quatro anos de democracia. O deputado José Mota Andrade depois deste carnavalesco episódio levou para Lisboa um bom bocado de esperança, ao invés os adeptos do butelo continuarão a apreciá-lo pelos anos fora, em todas as estações, sempre predispostos a concederem importância ao acessório e esquecerem o essencial. É isso que querem? Se é isso têm direito a Carnaval todo o ano como há no reino da Pasárgada, se pretendem ocupar as cadeiras do poder resta-lhes emendarem a mão votante, pensarem três vezes antes de procurarem justificar o injustificável e fazerem urgente auto-critica. Sinceramente, duvido muito que o façam!

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