Partem os jovens… permanecem os “velhos”
Intimidada pela presença alheia, Maria Fernandes esconde a cara da objectiva, com receio de que algum mal lhe possa advir da conversa contrariada com estranhos às suas memórias. Sem saber ler, não consegue verificar o logótipo na viatura do Jornal Nordeste e oculta-se sob as suas vestes negras. A picar abóboras para alimentar os suínos, esta senhora de 89 anos nasceu e criou-se para eleger Vale da Pena como última morada. Situada no concelho de Vimioso, numa encosta propícia à lavoura, a aldeia, que conta, actualmente, com cerca de 40 residentes fixos, é uma terra deveras dada ao azeite. A trabalhar no campo, bem no interior do povo, estava um grupo de seis pessoas que varejava os olivais.
Aquilo que distingue Vale da Pena é, essencialmente, a sua situação geográfica. Ao declarar-se numa encosta, fá-lo em termos de clima, tornando-se mais vantajosa para os produtos hortícolas do que outras aldeias anexas. Um facto desvalorizado, já que poucos são aqueles que se dedicam à agricultura a tempo inteiro. “Se as pessoas que estão cá ainda fizessem alguma coisa com a terra, acho que sairiam bastante beneficiadas pelo facto de viverem numa encosta”, afirmava, quando, abruptamente, foi interrompida na conversa pela queda, demasiado próxima, de um ramo monumental.
Já Glória Pires nasceu em Vale da Pena, mas habita em Vimioso. Hoje, regressa para a apanha da azeitona e expõe o sentimento de tristeza que a invade sempre que regressa ao “deserto”. “Gostava de ver aqui mais pessoas porque quando venho cá sinto tristeza de ver a aldeia deserta, sem ninguém”, manifesta Glória, que há 18 anos trabalha no Lar de Pinelo como encarregada.
Aldeia conquistou condições, mas perdeu as pessoas que lhe davam ritmo e vida.
Ao longo das últimas décadas, a aldeia cuja padroeira é Nossa Senhora da Piedade, conquistou inúmeras condições, sobretudo, de habitabilidade, mas perdeu o mais importante, as pessoas que lhe davam ritmo e vida. Somente no Verão, consegue reconquistar parte desses tempos idos. “Modificaram-se as ruas, os esgotos, não havia telefone e, agora, há telefone, há luz, isso temos. Pronto, mas, mais do resto… Fizeram-se umas casas novas, mas estão desabitadas porque as pessoas estão para fora e só vêm de férias no mês de Agosto”, revelou Glória, referindo-se aos emigrantes e a outras pessoas da aldeia, que, ficando em Portugal, partiram em busca do sonho. Resumido, essencialmente, em melhores condições de vida. É o caso de Nuno Pires, que rumou em direcção ao calor dos trópicos. Hoje, é o orgulhoso chefe de um restaurante nas Ilhas Canárias. O jovem de 28 anos regressa às origens, normalmente, quando se encontra de férias e fá-lo por vários motivos: para abraçar a família, para ver os amigos, para matar saudades da sua terra lusa, companheira de infância. “Fui embora pelas mesmas razões de toda a gente que parte. Falta de emprego, à procura de uma vida melhor e pela aventura, também”, confessa Nuno.
“Enquanto que a maioria dos jovens decidiu, por bem, partir, houve outros, poucos, que tomaram a decisão contrária. Arnaldo Martins é o exemplo de alguém que optou por ficar, apesar das contrariedades inerentes à sua permanência. “Dinheiro não há, pessoas, somos muito poucas, arranjar trabalho é complicado”, expõe. Com 49 anos, Arnaldo é pintor de profissão e trabalha por conta própria nas redondezas de Vale da Pena. Apesar das dificuldades e de certas privações, Arnaldo não desanima. “Há muita coisa que faz falta! Postos de trabalho, principalmente, que aqui quase não há. Mas, no momento de crise em que nos encontramos, uma pessoa não pode exigir muito”, afirma, ciente do estado de declínio a que a economia portuguesa chegou. “Batemos fundo”, ironiza, enquanto ajuda os familiares a executar o primeiro passo no processo de obtenção do azeite, a apanha da azeitona.