Região

“Quem ganha são os intermediários”

  • 3 de Novembro de 2010, 10:58

A campanha da apanha da castanha arrancou na última semana de Outubro e prolonga-se até ao final de Novembro. Na aldeia de Terroso, na freguesia de Espinhosela, a azáfama é grande nos soutos que ladeiam a localidade. Os agricultores palmilham os hectares de terra para apanhar o fruto dos castanheiros, que é considerado o “petróleo” da região.
A rentabilidade deste produto é confirmada pelos próprios agricultores, que garantem que a castanha ainda é o que vai dando dinheiro. Por isso, a maioria das pessoas de Terroso reconverteu em soutos os terrenos onde, antigamente, produziam grandes quantidades de cereal. “O cereal deixou de dar dinheiro. Por isso, plantámos soutos novos”, garante Julieta Gomes, enquanto faz uma pausa na jornada da apanha da castanha.
Esta habitante de Terroso afirma que as pessoas da aldeia se ocupam com a castanha, porque os restantes produtos agrícolas não têm saída no mercado. “Não compensa produzir mais nada para vender, só semeamos umas batatas para comer”, acrescenta Julieta Gomes.
Já a produção de castanha tem comercialização garantida. Manuel Afonso, de 80 anos, afirma que há sempre pessoas pelas aldeias à procura de castanha. “Nunca fiquei com nenhuma em casa”, garante o agricultor.
No entanto, Adérito Gomes defende a criação de uma cooperativa em Bragança para regular o preço da castanha e beneficiar os agricultores. “Quem ganha a maior fatia são os intermediários”, acrescenta.
A castanha na zona de Terroso tem sido vendida a 1 euro por quilo, um preço que os agricultores consideram baixo, pelo que há muitos que optaram por guardar o produto em casa e esperar que passe algum intermediário a oferecer um valor mais alto.
A mão-de-obra é um problema para os produtores de castanha, que têm dificuldade em contratar pessoal à jeira para a campanha. “É difícil arranjar quem queira trabalhar”, lamenta Manuel Afonso.

O preço da castanha ronda 1 euro por quilo, valor que os agricultores consideram baixo

Para ultrapassar esta situação, há quem aposte na mecanização da apanha da castanha. Adérito Gomes investiu cerca de 2500 euros na compra de uma máquina de apanha, um soprador e um crivo mecânico. Com estes instrumentos, este produtor não necessita de recrutar mão-de-obra para apanhar os cerca de 6 mil quilos de castanha que produz anualmente. “ No ano passado, eu e o meu filho apanhámos 36 sacas de 50 quilos num dia”, enaltece Adérito Gomes.
Quer chova ou faça sol, os agricultores vão diariamente para os soutos. “Quando chove andamos com umas botas e umas capas. Não se pára”, frisa Manuel Afonso.
As doenças que afectam os soutos, nomeadamente o cancro e a tinta, são, igualmente, uma preocupação para os produtores de castanha. No entanto, Adérito Gomes garante que com tratamentos é possível curar o cancro do castanheiro, que é a principal causa de morte das árvores. “Tinha um souto que estava praticamente morto e, neste momento, está praticamente recuperado”, garante o agricultor.
Para promover o produto, Adérito Gomes defende, ainda, a realização de uma feira da castanha nas aldeias do concelho onde se produz mais castanha, tal como já aconteceu em Terroso.
No entanto, o presidente da Junta de Freguesia de Espinhosela, Telmo Afonso, afirma que a feira nos moldes em que decorria antigamente não trazia mais valias para os agricultores, porque não havia comercialização de castanha.
O autarca garante que a Junta está empenhada em realizar um certame ligado à castanha na freguesia, mas afirma que este ano não foi possível devido à falta de apoios, uma vez que a Junta não tem verbas suficientes para suportar todas as despesas.

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