Região

“Parar é morrer!”

  • 7 de Setembro de 2010, 15:46

2 @ Ao longo das últimas décadas, assistiu a várias alte­rações de fundo no país? Mas o que é que mudou, de facto?
R: As pessoas são sempre as mesmas. O que muda são aspectos exteriores, mas o homem não mudou. Eu acho que as coisas não mudam, o que muda são as circunstâncias e não, propriamente,a índole das pes­soas. Essa é a mesma! Conserva-se sempre. Mas é o progresso. O mesmo que nos traz mais conforto e mais desconforto como se verifica agora com as inundações, os incêndios, as tempestades, a chamada crise. Isso é que muda! Mas a natureza do homem será sempre a mesma!

3 @ E quanto à região Nor­te, sobretudo, o Nordeste Transmontano? Desde há 50 anos, altura em que gravou o documentário «Acto de Pri­ma­vera»…
R: Eu cheguei agora… Era preciso que eu tivesse aqui uma presença mais demorada para saber o que é que mudou. Mas, uma coisa que costuma mudar é uma espécie de descaracterização das vilas e das cidades, que deixam perder aque­le aspecto mais profundamente carac­terístico que é a própria conservação desses traços. Ao contrário de outros países…. Hitler bombardeou Varsóvia e a cidade foi reconstruída através de fotografias e pinturas de Canaletto para repor a cidade como era. Aqui, há a tendência de descaracterizar tu­do, rasgar avenidas, prédios novos em sítios velhos, em vez de os fazerem em sítios novos, conservando aquilo que havia. Mas não vamos entrar por esse caminho..

4 @ Viveu alguns dos maio­res momentos da história con­temporânea da humanidade. Que momentos foram esses que o marcaram realmente?
R: O momento mais marcante de Portugal para quem viveu este tempo em que eu vivo foi, realmente, o 25 de Abril.

5 @ E a nível mundial?
R: Nós estivemos, tranquilamente, em Portugal! Até rima… Não tenho razão de queixa, nas viagens que eu fiz lá fora fui sempre bem atendido… Lumiere filmou a chegada do comboio à estação e o público, quando ouviu o seu barulho, no cinema, fugiu com medo que passasse sobre eles. Depois, do aparecimento do comboio criaram-se as máquinas a vapor e apareceu, então, a indústria capitalista. Esta, criou o operariado e o operariado criou Marx. Marx criou o comunismo na Rússia, que criou o fascismo, em Itália com Mussolini, em Portugal com Salazar, na Alemanha com Hitler e em Espanha com Franco. A Grande Guerra quebrou esse rumo e o 25 de Abril foi uma nota interessante de abertura que levou, mais tarde, à queda do Muro de Berlim e ao socialismo em França. A queda do muro foi uma coisa extraordinária e tudo parecia no bom caminho para a Europa. No entanto, apareceu o Kosovo e essa marmelada toda… Agora, temos, ainda, a sobrepor-se a crise… E cá estamos, a sobreviver!

6 @ Como é que escolhe fa­zer um filme em detrimento de outro?
R: Não faço filmes por encomenda! Mas por desejo natural… É o acaso que nos dá aquela circunstância… É o que melhor se presta a ser fil­mado… Agora, existe a exigência de um produtor que nos deixe livre o pensamento para as filmagens e corresponda às nossas necessidades fílmicas.

7 @ Como é que classifica o actual estado de coisas em Portugal? Nomeadamente, na cultura.
R: Hoje, os produtores só fazem um filme quando têm o dinheiro todo para filmar e muitas vezes fica-se sem o próprio ordenado. Conseguiu-se fazer o filme, mas fica por aí. É uma situação terrível. Os realizadores só têm subsídios quando filmam, não têm subsídios de desemprego, não têm reforma, de maneira que, quando filmam, se lhes sobra algum dinheiro, têm de o guardar para um dia de dificuldade, uma doença, a família ou algo parecido… Enfim, é uma situação ingrata! Mas, espero bem que a Ministra dê saída a esta encrenca.

Não faço filmes por encomenda! Mas por desejo natural…

8 @ Um dos seus netos, da sua filha Adelaide, é o conhecido actor Ricardo Trepa. Que é que sente como avô e realizador, já que o próprio Manoel foi actor em algumas ocasiões?
R: O meu neto é hábil e tem uma certa garantia porque se presta bem. De resto, desempenhou no filme «O Quinto Império – Ontem como Hoje»o papel de D. Sebastião. Uma interpretação extraordinária, que ultrapassou tudo quanto eu ima­ginava. Gosto que os actores sejam espontâneos o mais possível… Essa é a melhor forma, a mais correcta! Não gosto que representem, mas que vivam o papel.

9 @ Existem novidades, para breve, em termos de filmes ou projectos?
R: Eu não queria muito falar sobre isso porque é uma coisa que ainda está em suspenso. Trata-se, primeiro, de uma co-produção com o Brasil e tenho outro que também não está, ainda, bem claro, dada a circunstância da situação com o produtor. Tenho que encontrar nova gente e, portanto, é tudo muito ambíguo por enquanto. A minha vontade era começar já este ano e continuar no ano que vem.
Parar é morrer! Um realizador não pode parar, tem de permanecer activo

10 @ É a partir dos seus 60 anos, após uma longa paragem, que acelera o seu ritmo de trabalho com, em média, um filme por ano. A que se deve tal empenhamento depois de atingida já uma idade mais avançada?
R: Porque estava atrasado… Estive 14 anos parado. Acha pouco? Mas não deixei de pensar nos filmes e o meu critério sobre cinema modificou muito. Essa passagem para uma fase mais activa aconteceu devido à Fundação Gulbenkian que ajudou o novo cinema português e financiou três filmes, um dos quais, em 1971, era meu: «O Passado e o Presente». Essa foi a abertura para depois continuar por aí fora…

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