Crianças e pais frequentam a mesma sala de aula
Maria Dina Lousada, professora há 25 anos, está a leccionar na escola de Penhas Juntas, pela primeira vez. A uma semana do fim do ano lectivo classifica o trabalho como uma “experiência óptima”, que a obrigou a aprofundar mais a sua própria maneira de ser e de estar perante as crianças que vêm de uma cultura familiar diferente. “Foi uma experiência nova, é um grupo quase exclusivo de etnia cigana, mais duas crianças que vieram de Leiria depois de o ano lectivo arrancar”, explicou a docente, que não regateia elogios aos alunos “assíduos e pontuais”, garante.
O programa de formação de adultos é um projecto do Agrupamento de Escolas de Vinhais por dois anos, estando a poucos dias de terminar a primeira fase. Ana Maria dos Santos, mãe de duas alunas e ela própria estudante à noite, está muito satisfeita por ter regressado à escola. Já sabe assinar o nome e está a esforçar-se por aprender a ler, “mas juntar as letras é mais difícil”, admite. Em pequena nunca foi à escola e valoriza saber ler e escrever. É por isso que incentiva os seis filhos a “aprender as letras”, porque assim “podem ir para qualquer lugar e sabem onde estão e como devem ir”, referiu. “Só faltam quando estão doentes”, acrescentou.
Maria Dina Lousada considera uma “mais valia” para o ensino das crianças a frequência da escola pelos pais, porque passaram a valorizar mais o ensino e adquiriram a noção de que é importante ir à escola, tanto mais que muitos nunca tiveram oportunidade de a frequentar na infância.
As crianças vão para as aulas de manhã muitas vezes sem ter tomado o pequeno-almoço
O programa escolar dos mais novos é diferente e adaptado à situação, com metas específicas de acordo com as necessidades dos alunos “que são um pouco diferentes e enfrentam maiores dificuldades de aprendizagem, pois em casa não têm nenhum tipo de acompanhamento. “Precisam de muita insistência porque o que adquirem é o que levam daqui”, contou a professora.
Estes alunos não levam os livros para casa durante todo o ano lectivo, deixando-os na escola. O mesmo sucede com o computador Magalhães. As crianças vão para as aulas de manhã muitas vezes sem ter tomado o pequeno-almoço, e é na escola que fazem as refeições do dia. Logo à chegada é-lhes dado leite e bolachas, a meio da manhã fazem um lanche com sandes e fruta, almoçam e lancham à tarde, sendo as refeições são suportadas pela Câmara Municipal de Vinhais.
Se a escola encerrar no próximo ano, muitos destes jovens ficarão desprotegidos, considera Dina Lousada. “Noutro meio não sei como vai ser, porque eles precisam de uma atenção especial. Muitas vezes, quando vão para o 2º ciclo, acabam por se tornarem menos assíduos e dificilmente prosseguem os estudos”, explicou a docente. “Para conseguirem”, acrescenta, “teriam de ter um ensino o mais possível individualizado, pois solicitam a nossa ajuda constantemente e sou pouco seguros do que são capazes”
Recorde-se que a escola de Penhas Juntas foi encerrada há três anos, mas manteve-se aberta, a título excepcional. O futuro é incerto, uma vez que a nova determinação do Ministério da Educação prevê o encerramento de todas as escolas com menos de 21 alunos. No entanto, o director do Agrupamento de Escolas de Vinhais, Rui Correia, confirma que haverá tentativas para manter a escola aberta, pelo menos mais um ano.
Glória Lopes