Uma aldeia sem festa
Não tem mais do que 25 habitantes e, para além da capela do Divino Espírito Santo, padroeiro da aldeia, não tem monumentos ou locais históricos. A sua importância reside nas pessoas e foi por elas e pela sua opinião que nos deslocámos, entre montes, até um destino completamente desconhecido. Ouviu-se falar numa aldeia quase fantasma, com apenas seis pessoas, mas Nuno do Nascimento usou e abusou das somas matemáticas e, sem recurso a uma calculadora, descreveu toda e qualquer pessoa, parando, somente, no resultado final: 25. Eu confio. Operado à coluna, depois de ter sido colhido por um carro, encontra-se fisicamente limitado por umas canadianas. “Agora não sou nada”, revela o seu íntimo. Mas eu não quero, simplesmente, acreditar. Sentámo-nos à conversa, pela sombra de uma brisa fresca, quando ele me diz como ocupa o seu tempo. “Tenho uma horta pequena mais acima e, assim, entretenho-me. Também, tenho uma propriedade maior, mas essa nem sequer vou lá”, assopra, talvez, por princípio de conversa. Perguntei, então, se no Verão havia festa, um costume antigo das aldeias, e se vinham emigrantes de férias. “Já há muitos anos que isto não tem gente para fazer festa. Temos uma população envelhecida, quase toda reformada, só meia dúzia é que ainda trabalha. No Verão, há poucos emigrantes que regressam, alguns 2 ou 3”, responde Nascimento.
Entretanto, de dentro de casa saiu uma senhora, sua esposa, que se sentou ao nosso lado e sentiu confiança suficiente para desabafar: “Eu, infelizmente, estou aqui no deserto. Eu sou de Paradela e só estou aqui por causa do meu marido, porque é de cá e tem aqui o coração dele. Mas eu não gosto disto! Por mim, já estava em Paradela, que tenho lá família e aqui não tenho ninguém, sou só eu e ele. Portanto, veja lá o que eu posso aqui estar de contente”.
Sem transportes, Lamas de
Cavalo é uma aldeia próxima de muitas outras, mas distante
de tudo e todos
Ana Céu, 77 anos, veio para Lamas de Cavalo quando casou com Nascimento. “Tinha 32 anos incompletos”, recorda. Nessa época, o marido conta que as casas estavam todas habitadas, “mas uns morreram, outros partiram para Lisboa e para França, mas eram mais de 100 pessoas aqui na aldeia”, testemunha o octogenário. Sem autocarros a cruzar Lamas de Cavalo, a população, sempre que pretende deslocar-se, tem de chamar um táxi de Mirandela. São 15 euros numa viagem que, na maior parte das vezes, representa um considerável rombo na demasiado magra pensão de reforma. “Ainda na segunda-feira, o meu marido foi ao Porto fazer um exame. Saiu ainda não eram as 6 horas e entrou-me em casa já passava da meia-noite e eu sozinha aqui”, apregoa Ana Céu, algo inconformada com a solidão e, ainda, esperançada em convencer o marido a mudar de poiso. Questionados sobre que futuro a esposa de Nascimento não tem dúvidas: “Daqui a 10 ou 20 anos, o futuro desta aldeia é ficaram cá duas famílias”. Já o seu cônjuge suspeita que não demorará tanto tempo a permanecerem, apenas, 2 ou 3 casas habitadas. “A gente idosa que aqui há, daqui a 10 anos já cá não está. Há aqui 3 ou 4 com quase 90 anos e outras de 85, 84 e por aí. Com 30 e tal anos, são 2 ou 3. Mocidade nova há só 1 rapazito, e nada, anda com meia dúzia de ovelhas que aí tem”, revela, sem esperança, este agricultor de tempos idos.
A família de Nascimento não termina em Lamas de Cavalo: “tenho três irmãs mas estão casadas todas fora e não vêm para aqui, os sobrinhos também não vêm, de vez em quando fazem uma visita, nas férias, mas é raro”, confessa como quem não admite solidão. “Uns vivem em Macedo, têm um trabalho de categoria, são mecânicos, mas não vêm para aqui”, completa Ana Céu, a sentença do seu marido, sabendo que terão de continuar a viver, praticamente, sozinhos. Ele conformado com a solidão. Ela não!