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Sapateiros de Cerejais resistem à crise

Sapateiros de Cerejais resistem à crise
  • 26 de Janeiro de 2010, 11:05

“Temos clientes a nível nacional. Também temos encomendas de Bragança, Macedo, algumas aqui da aldeia, mas a maioria dos nossos clientes são da zona do Porto e Braga”, salienta Manuel Teixeira.
Apesar da crise, os três irmãos não se queixam da falta de encomendas, até porque para além dos clientes habituais há sempre pessoas que ouvem falar dos sapateiros de Cerejais e rumam até à pacata aldeia para mandarem fazer o calçado.
“A maioria dos nossos clientes vem uma vez e depois volta. É porque o trabalho tem qualidade”, enfatiza Manuel Teixeira, que se dedica a esta arte há cerca de 45 anos.
Depois de ter aprendido com o irmão mais velho, Arménio Teixeira, Manuel ainda esteve 12 anos em França, mas na hora de regressar não teve dúvidas em seguir o ofício herdado pela família. “O meu avô já era sapateiro. Depois o meu pai seguiu-lhe os passos, mas paralisou muito novo. Entretanto, o meu irmão mais velho aprendeu a arte e eu aprendi com ele”, conta o sapateiro.
Manuel Teixeira recorda os tempos de antigamente, em que o trabalho era mais rentável e a maioria das pessoas encomendavam o calçado aos sapateiros artesanais. “Já teve fases melhores e outras piores, mas no tempo em que não havia fábricas era diferente. Agora também há mais procura, porque já há pouca gente a fazer trabalho artesanal”, afirma o artesão.
Aos 67 anos, Arménio Teixeira demonstra a minuciosidade do trabalho enquanto cose umas botas de cano. “São umas botas para um militar da Brigada de Trânsito. Dão muito trabalho, porque é tudo feito à mão. São cerca de três dias de trabalho”, explica o sapateiro.

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Depois de ter aprendido com o pai num atelier exíguo, a oficina em que Arménio trabalha nos dias de hoje é mais espaçosa. A luz entra pelas janelas, facilitando o trabalho aos três irmãos, que laboram no centro do atelier. O silêncio do trabalho manual só é interrompido pelo barulho das três máquinas, nomeadamente a gaspiadeira (para cravar o calçado), da máquina de acabamentos e daquela que é usada para vergar o calçado.
O cliente é que idealiza o calçado e faz o pedido de acordo com as suas preferências. “Damos sempre o nosso parecer, mas a pessoa é que nos diz aquilo que quer. Depois, tiramos sempre a medida, porque há pés mais gordos e outros mais magros. O pé do cliente é que pede a bota”, frisa Manuel Teixeira.
Também Arménio faz referência às formas para salientar os diversos tamanhos que têm à disposição dos clientes. “Vão desde o 34 ao 48. O 48 não é usado por muita gente, mas às vezes aparece quem calce este número”, graceja.
Apesar de antigamente este trabalho dar mais dinheiro, estes sapateiros trabalham por amor à arte. Prova disso é o esforço feito para executar algumas tarefas, como aquela que Hernâni teimava em levar a cabo. “Estou a pontear umas botas. É um trabalho um bocado complicado, porque antes de passar o fio tenho que furar com a sovela”, sublinha o artesão.
Os sapateiros de Cerejais prometem dar continuidade a esta arte de família enquanto tiverem forças, mas a juventude parece não estar interessada em seguir-lhes os passos.

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