Futebol Infantil: que modelo de competição para os escalões de Escolas e Infantis?
No desporto para adultos, treina-se para competir: a competição é o fim e o treino é o meio. No desporto para crianças, compete-se para treinar: a aprendizagem e o desenvolvimento são o fim; o treino e a competição são ou deverão ser os meios.
Nesta linha, e situando-me apenas na minha área de intervenção – a formação desportiva em futebol – diria que a competição, além de dever constituir uma extensão e um complemento do treino, constitui, também, a principal fonte de motivação, responsável, em grande medida, pelo desenvolvimento e pelo “agarrar” de muitas crianças ao futebol. Sem competição não há motivação, não há treino. Sem treino e sem motivação não há aprendizagem e desenvolvimento.
Por estas razões, os quadros competitivos para crianças e jovens devem ser cuidadosa e pedagogicamente pensados.
Da observação dos jogos que espontaneamente as crianças praticam e da leitura de trabalhos de referência publicados na área da pedagogia do desporto, é possível extrair três importantes princípios orientadores da construção de quadros competitivos para crianças e jovens e que são:
a) O princípio do equilíbrio entre as equipas em confronto. A competição dificilmente será potenciadora de motivação e desenvolvimento se houver grandes desequilíbrios entre os competidores. O acumular frequente de pesadas derrotas provoca níveis de tensão e ansiedade desconfortáveis, sentimentos de incompetência e frustração que obviamente comprometem a aprendizagem. O acumular de vitórias “esmagadoras” também não é benéfico para o desenvolvimento óptimo dos protagonistas porque, além de criarem expectativas falsas relativamente às suas reais competências, não lhes coloca desafios adequados e estimulantes.
b) O princípio da igualdade de oportunidades para todas as equipas participantes. Participar nas competições equivale a mais motivação, a mais tempo de prática. Em princípio, quem mais compete mais pratica e mais evolui. Por isso, os quadros competitivos devem ser concebidos de forma a que todas as equipas joguem o mesmo número de jogos.
c) O princípio da longa duração dos quadros competitivos. A competição é, como já foi referido, um importante factor de motivação pelo que a frequência dos jogos deve ser programada de forma a cobrir toda a época desportiva (época que deve ter uma duração igual à do ano escolar – 10 meses). Os jogos de competição deverão começar no início da época (mês de Outubro) e terminar apenas no final (mês de Junho). Mais importante do que a quantidade de jogos, que por motivos associados à saturação dos pais e dos dirigentes desportivos, não deve ser excessiva, é a sua distribuição ao longo da época. A densidade de jogos deverá ser espaçada nos escalões de escolas (quinze em quinze dias, por exemplo) e ir aumentando progressivamente até se aproximar da média de um por semana nos escalões mais avançados. Quadros competitivos com 16 jogos podem ser realizados em quatro meses (um jogo por semana) ou em oito (um jogo de 15 em 15 dias). Em ambos os casos, o número de jogos é o mesmo, mas os seus efeitos no desenvolvimento dos atletas são substancialmente diferentes. No primeiro caso, temos as crianças activas e motivadas para treinar durante 4/5 meses. No segundo, conseguimos manter a actividade e a motivação dos atletas durante 9/10 meses.
Equilíbrio, igualdade de oportunidades e duração longa são pois as características fundamentais que os quadros competitivos para crianças e jovens devem possuir. Características que ainda não conseguimos ver nos modelos de competição aplicados no distrito de Bragança.
Na tabela 1, apresentamos os traços principais dos quadros competitivos que, com ligeiras alterações, têm vindo a ser aplicados nos últimos anos no distrito, nos escalões de escolas e infantis.
São dois os pecados mortais deste modelo de competição. O primeiro é a curta duração do quadro competitivo para a maior parte das equipas – as que não passam à 2ª fase. O segundo é a falta de equidade, de justiça e de respeito pelas equipas dos clubes de menor expressão. Este modelo proporciona bastante mais tempo de competição e treino a 4/6 equipas (às equipas mais fortes pertencentes, por norma, aos clubes de maior dimensão) do que às restantes 10/12 equipas (às equipas mais fracas pertencentes, quase sempre, aos clubes de menor expressão). Para estas últimas, a época desportiva e as possibilidades de aprendizagem e desenvolvimento terminam quando são eliminadas da competição – isto é, ao fim de três ou quatro meses de trabalho. Não, este modelo não serve a formação. Serve apenas os interesses e o egocentrismo dos clubes de maior implantação do distrito cujas equipas passam, quase sempre, à 2ª fase. Enquanto consentirmos que à maior parte das equipas de futebol infantil do distrito seja negado o direito à igualdade de oportunidades de aprendizagem e sucesso, esqueçamos a formação. Por mais competentes que sejamos, pouco ou nada poderemos aprender ou ensinar em 3/4 meses de trabalho e 8/9 de inactividade e esquecimento.
A quadros competitivos com estas características dizemos naturalmente: não! E “não” disseram, também e finalmente, a Direcção da Associação de Futebol e a maior parte dos clubes associados que, na presente época, decidiram aplicar um outro modelo de competição: o “todos x todos” a duas voltas.
* Docente da Escola Superior de Educação de Bragança
Director pedagógico da
Escola de Futebol Crescer
(continua
no próximo número)