Lúpulo resiste em Bragança
O processo continua junto à máquina peladora, onde os “cones” que contêm a lupulina são separados e levados até ao secador. Aqui as altas temperaturas (rondam os 80 graus) preparam o lúpulo para a prensagem, que é feita num armazém em Santa Comba de Rossas, onde está sedeada a cooperativa Bralúpulo.
O Jornal NORDESTE visitou este processo no último campo que resiste em Gimonde, concelho de Bragança. Viriato Sá iniciou a produção há 28 anos e garante que vai resistindo, apenas, por “carolice”. “Na altura fazia parte de uma sociedade que tinha mais dois campos, um em Paredes e outro em Rossas. Por questões económicas foram abandonados e hoje resta, apenas, este campo”, conta o agricultor.
A queda da rentabilidade da produção levou ao abandono dos terrenos e, actualmente, restam, apenas, três produtores em Bragança e no País. “Antes também havia campos em Braga, mas já foram todos desactivados”, lamenta Sá Morais, o último produtor em Vinhas.
É no Nordeste Transmontano que é produzido o lúpulo utilizado pela UNICER nas cervejas que lança no mercado. “A transformação é feita na Alemanha, de onde os ácidos alfa que dão o sabor amargo à cerveja já vêm enlatados”, explica Viriato Sá.
O produtor conta que a UNICER chegou a propor aos produtores o aumento da produção com a instalação de novos campos, um investimento considerado incomportável face aos preços praticados no mercado. “Estivemos a fazer contas e instalar um campo custa cerca de 50 mil euros por hectare, uma máquina peladora custa cerca de 20 mil, o secador mais 10 mil. São investimentos muito grandes. Ninguém arrisca”, salienta o produtor de Gimonde.
As 30 toneladas de lúpulo produzidas no Nordeste Transmontano são transformadas na Alemanha
A qualidade do lúpulo cultivado em Bragança é reconhecida, mas os elevados custos, desde a plantação à transformação, que é feita na Alemanha, inviabilizam a aposta em novas culturas. “Para ser instalada cá uma empresa para fazer a transformação tinha que haver uma produção muito grande, o que não é o caso”, realça Sá Morais.
No Nordeste Transmontano são produzidas cerca de 30 toneladas de lúpulo em flor nos cerca de 15 hectares que ainda resistem em Gimonde, Pinela e Vinhas.
Nos tempos áureos da produção saíam 300 toneladas dos campos de Bragança e Braga.
Na óptica de Sá Morais, só é possível revitalizar a cultura do lúpulo com grandes apoios concedidos pelo Ministério da Agricultura.
O agricultor lembra, ainda, que o lúpulo é uma cultura que exige muita mão-de-obra. “Durante a colheita, que dura cerca de 20 dias, tenho que meter 10 pessoas diariamente”, realça Sá Morais.
Também Viriato Sá dá trabalho a 9 pessoas durante o processo de apanha e pré-transformação ao longo dos 12 dias que dura a campanha. “Tenho que pagar jeiras, não tenho alternativa”, conta.
Enquanto os campos de lúpulo continuam a servir de cenário fotográfico aos visitantes que passam pela região, os produtores esforçam-se, diariamente, para não deixar morrer uma cultura que leva o nome de Bragança além fronteiras.