Lagar de cera é caso único na Europa
Aqui o negócio da cera chegou a ser a principal fonte de rendimento da maioria das famílias. Os cereeiros percorriam a região para comprar a cera extraída das abelhas e vender as velas artesanais que confeccionavam em oficinas improvisadas dentro das suas próprias casas. Hoje, a laboração está quase parada e a confecção de velas já só se faz em determinadas épocas do ano, como a Páscoa ou o Natal.
O lagar comunitário da cera faz parte da história da freguesia de Felgueiras, conhecida como terra de cereeiros. “Na década de 60 ainda havia em Felgueiras mais de 20 cereeiros”, conta a presidente da Junta de Freguesia de Felgueiras (JFF), Rosário Patrício.
Quando se entra no lagar, desactivado há cerca de duas décadas, encontram-se os artefactos que, antigamente, serviram para apurar toneladas de cera que eram distribuídas, em bruto ou transformadas em velas, por toda a região transmontana. Nos tempos áureos da laboração, os cereeiros elaboravam um calendário para o uso do lagar comunitário. Eram as pessoas que usavam esta infra-estrutura que garantiam a sua manutenção, até porque era através desta actividade que os negociantes da cera garantiam o sustento da família.
A coordenação entre todos fazia parte das regras do negócio. “Tínhamos os roteiros bem definidos. Na zona que eu andava não iam os outros e eu também não me metia nas áreas dos outros cereeiros”, conta Acácio Mendes.
Aos 76 anos, este habitante de Felgueiras é um dos rostos da indústria da cera, que foi perdendo força com o passar dos anos. Agora, Acácio afirma que faz velas, apenas, quando lhe apetece, até porque a idade já pesa. Mesmo assim, é com orgulho que afirma ainda ter na sua oficina cera que apurou no lagar.
Para imortalizar a história da indústria da cera, a JFF quer transformar num museu o antigo lagar comunitário, para cativar visitantes e tornar a aldeia mais turística. “É o único lagar da cera na Europa”, enaltece a autarca.
Felgueiras substituiu calçada de pedra de ferro por paralelo, mas guarda vestígios das minas numa rua e nos largos
O primeiro passo para não deixar morrer esta arte foi a realização de uma formação através do Instituto de Emprego e Formação Profissional, há oito anos atrás. “No final nenhuma das 10 formandas quiseram criar o seu próprio negócio e eu decidi apresentar uma candidatura para a instalação de uma oficina e criação de um posto de trabalho na confecção de velas, até porque fomos incentivadas a não deixar morrer esta arte”, conta a presidente da JFF, Rosário Patrício.
Já Acácio Mendes, que deu formação prática a este grupo, explica que a confecção de velas é um trabalho minucioso e exige sabedoria. “A cera é aquecida na caldeira, penduram-se as torcidas na roda e com uma colher começa-se a deitar a cera em camadas que vão solidificando”, explica o cereeiro.
A calçada em pedra de ferro é, igualmente, uma imagem de marca de Felgueiras.
Quem passar por Felgueiras pode, ainda, visitar a igreja matriz, construída pelo povo há cerca de 40 anos, e o santuário de Santa Eufémia.