Piaget certifica competências em mirandês
A oportunidade de apostarem na sua formação recorrendo à “língua mãe” foi-lhes dada pelo Centro Novas Oportunidades do Instituto Piaget de Macedo de Cavaleiros, que é pioneiro na região a certificar competências na “lhéngua”.
“Como a língua mirandesa foi oficializada e foi a primeira língua que aprendi em criança disse ao professor Cameirão que só me metia a fazer o 9º ano se fosse em mirandês”, conta Albertina Pires, de 62 anos.
Também Luís Silva, de 36 anos, realça que não faria sentido certificar as competências que foi adquirindo ao longo da vida sem ser na língua em que aprendeu a expressar-se. “Eu só comecei a falar português quando entrei para a escola. Por isso, quando surgiu esta oportunidade disse logo que sim”, realça o formando.
A vontade de aprender mais e de partilhar com os formadores aquilo que aprendeu na escola da vida, levou Albertina a contrariar o marido e a voltar aos bancos da escola com 62 anos. “Ele (o marido) dizia-me para que te vais meter nisso se já tens tanto trabalho. E eu um dia mostrei-lhe umas curiosidades que vinham numa revista, que diziam que Verdi compôs a ópera Otello, com 70 anos, Miguel Ângelo pintou a capela Sistina já com 66 anos e Vítor Hugo escreveu a história de um crime aos 65 anos. Eu só tenho 62 anos”, enaltece Albertina.
Língua mirandesa ganha mais dinâmica com a certificação de competências a adultos do Planalto na “língua mãe”
Naturais de S. Pedro da Silva, no concelho de Miranda do Douro, Albertina e Luís recorreram à experiência de vida para fazer os portfolios que entregaram ao júri avaliador. Albertina falou da sua história de vida e da matemática que aprendeu durante os tempos em que andou a cobrar a luz nas aldeias. Nessa altura falava sempre mirandês com as pessoas do Planalto. Já Luís falou do seu percurso profissional que o levou a correr mundo, mas quis o destino que voltasse à sua terra natal. Em S. Pedro, Luís dedicou a sua vida à Associação Cultural da terra e à pecuária, uma actividade herdada do seu pai.
O coordenador do Centro de Novas Oportunidades do Piaget, Carlos Silvestre, afirma que o processo para certificar competências foi moroso mas o objectivo foi cumprido. “Como tínhamos pessoas interessadas em reconhecer competências, mas só o fariam se fosse em mirandês, fizemos um pedido de validação e certificação do processo em mirandês”, explica o responsável.
Já o presidente da Associação de Língua Mirandesa, Amadeu Ferreira, realçou a importância deste tipo de iniciativas para dinamizar a segunda língua oficial de Portugal. “Isto é uma novidade e neste aspecto fiquei surpreendido com a competência demonstrada no uso da língua mirandesa. Penso que é uma aposta ganha”, vincou o responsável.
A turma de formandos era composta por 14 alunos, mas, apenas, dois certificaram as competências em mirandês. “Como o processo ainda levou algum tempo e havia pessoas que tinham pressa, devido às tarefas agrícolas, acabaram por fazer o curso em português”, justifica Carlos Silvestre.