Droga e crime: dois mundos inseparáveis
Uma pastilha ou uma snifadela experimentadas numa brincadeira que, a pouco e pouco, se transforma na lamentável rotina de tantos jovens. Alguns ainda mal deixaram para trás a sua criancice.
Depois da euforia repentina e risos descontrolados, da adrenalina e da entrega de corpo e alma às noites regadas a álcool e droga, os problemas surgem em catapulta e descontroladamente. Começam a faltar notas e moedas na carteira dos pais. Desaparece o ouro guardado religiosamente no velho guarda-jóias de família.
Do “desvio” de dinheiro da própria casa aos furtos é, apenas, um pequeno passo. É ténue a linha que separa as antigas brincadeiras partilhadas entre amigos de infância do chorrilho de mentiras, roubos, violência e crime.
A mesma história é repetida vezes sem conta. Muda a idade, o local de nascimento e o nome dos protagonistas, mas mantém-se a dor, o sofrimento, o destino e o crime.
Foi uma vida marcada pela ilegalidade e toxicodependência que dois reclusos do Estabelecimento Prisional de Izeda (EPI) levaram a dezenas de alunos da Escola Secundária Emídio Garcia, em Bragança.
“Manuel” (nome fictício) ainda nem chegou aos 30 e já conta com oito anos atrás das grades. Começou com os charros em festas nocturnas e nas discotecas. As drogas mais pesadas chegaram pouco mais tarde, pelas mãos de “amigos”.
“Tudo se inicia com uma experiência, quase por brincadeira. Gostamos e até podemos curtir, mas depois deixamos de ser nós a dominar a droga, para passar a ser o contrário”, lamentou o recluso.
Do consumo à prisão foi, apenas, um passo. “Falta-nos o dinheiro e, então, começamos nos furtos e foi isso que me levou a uma condenação de 11 anos, quando tinha somente 21 anos”, recordou Manuel.
Segundo o detido, “nunca pensei que isto me pudesse acontecer”. Contudo, adianta que “se contactarmos com as drogas, é difícil não entrarmos para a prisão e para o mundo do crime, onde tempo é sorte, já que, mais tarde ou mais cedo, todos são apanhados”, observa o recluso.
“Saber dizer Não às drogas, é dizer Não ao mundo do crime”
A história de vida de “António” (nome fictício) não é muito diferente da de Manuel. Aos 35 anos, e condenado a dez anos e meio, o principal ensinamento que leva da reclusão é que “consumir droga não vale a pena e é muito importante sabermos dizer que Não. Pois é, também, dizer que Não ao mundo do crime”, assevera.
O primeiro contacto com os narcóticos deu-se com, apenas, 14 anos, altura em que começou a fumar charros. A passagem para a heroína e cocaína foi tão repentina que o detido a compara “a uma verdadeira bola de neve”.
Com o consumo de drogas, e apesar de trabalhar como barman à noite, António depressa se deu conta de que o ordenado não chegava para a dose seguinte.
“Comecei a cometer alguns crimes para poder comprar a droga, porque o salário simplesmente desaparecia”, lamentou.
Ao longo de anos, a família de António tentou, sem sucesso, levá-lo a fazer alguns tratamentos para a toxicodependência. “Tive recaídas. E a cada recaída ficamos ainda mais agarrados. Desiludi quem me apoiava e gostava de mim. Fiquei triste comigo próprio, mas quando consegui sair, fi-lo sozinho”, recordou.
Depois de passar pelo Estabelecimento Prisional de Custóias, onde “tudo funciona à base de crimes e problemas”, António pediu transferência para o EPI que “é uma das melhores prisões, apesar de nenhuma cadeia ser boa”, sublinhou.
Droga acaba com liberdade de escolha dos toxicodependentes
Para o médico Pinto da Costa, que participou no 2º ciclo de conferências “A Educação e Formação de Adultos em Contexto Prisional – Educar para a Saúde”, que decorreu no Estabelecimento Prisional Regional de Bragança (EPRB), é essencial dar a conhecer os malefícios da droga. “É preciso informar com verdade aquilo que se passa para que, quem experimente a droga, o faça em liberdade”, sublinhou o responsável.
Segundo Pinto da Costa, o toxicodependente perde “a liberdade de recusar a droga, porque precisa dela, sendo que a única moral que existe é a de arranjar dinheiro para a próxima dose”.
Recorde-se que, dos 75 detidos no EPRB, cerca de 15 são acompanhados pelo Centro de Respostas Integradas (CRI) de Bragança. “Tentam encaminhar e motivá-los para iniciarem o tratamento”, explicou a psicóloga do CRI, Sandra Valdemar.
Para o director do EPRB, Mário Torrão, “a toxicodependência não é só um problema das cadeias”. Contudo, e com o objectivo de melhorar a saúde nas prisões, a Direcção-Geral dos Serviços Prisionais pretende reforçar as equipas de enfermagem e médicos de clínica geral nas cadeias. “É um concurso lançado com vista à prestação de serviços de saúde aos toxicodependentes o que permitirá um saldo positivo”, sublinhou o responsável.