Região

Quem se queixa afinal?

  • 22 de Julho de 2008, 09:40

Toda a gente sabe que a economia nacional depende, em grande parte da economia mundial, mas nem por isso podemos culpar os outros países e as transacções internacionais daquilo que nos acontece cá dentro. Isto parece-me evidente.
No entanto já nos apercebemos que a juntar ao economicamente mal, temos o socialmente péssimo. Portugal está a atingir os níveis mais baixos de pobreza alguma vez existentes neste país. As últimas notícias dão-nos conta de pessoas da classe média a enviar mails a pedir comida à Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e não só. O que é isto, afinal?
Chegamos ao mês de Julho. É a época de férias que começa, atingindo o seu apogeu em Agosto. Os preços praticados este ano também são mostra de uma conjuntura desfasada economicamente, mas nem por isso se nota uma descida tão grande quanto se esperava. Mas se todos nos queixamos que a economia está mal e que os vencimentos mal dão para pagar a renda da casa ou a prestação ao banco, da casa ou do carro, não se entende o que move as pessoas em direcção às praias, alugando tudo o que aparece, a troco de uns milhares de euros?! Afinal as coisas estão mal ou não? Ou será que há outros modos de fazer férias? Parece que sim.
Na realidade, há já quem compre férias a prestações. Têm quase um ano para as pagar e é mais uma prestação a juntar às outras, agravando a situação financeira das famílias. Que fazer?
Toda diz que quem não tem dinheiro não se estabelece, o que equivale a dizer, que quem não tem dinheiro não tem nada que ir de férias. Fácil de dizer, não? Pois é. Então uns têm direito a tudo e outros a nada? Se as coisas fossem assim tão lineares, que fácil seria explicá-las! Mas não são. O que se passa é que as pessoas estavam habituadas a ir de férias descansadamente e sem grandes preocupações de dinheiro porque este chegava e agora não chega. Este é que é o problema! Não querendo perder o direito que tinham conseguido, vêm-se na obrigação de ter de comprar ou pagar prestações a troco de uma ou duas semanas de férias à beira-mar.
Mas quem se queixa afinal? Eu ouço as pessoas dizerem que tudo isto está mal. Fazem-se greves a torto e a direito, manifestações de Norte a Sul, mas no fim de contas toda a gente vai de férias! Não há casas para alugar em parte nenhuma. O Algarve está repleto e não são só estrangeiros os que se passeiam por lá. Pois é. A necessidade do descanso, do Sol e do mar, da praia, do tempo livre, é tão grande e imprescindível que vale tudo para o conseguir.
Agora, durante quase dois meses, todos se esquecem dos problemas maiores, para viver umas semanas de férias bem merecidas. O stress fica de lado. O que interessa é aproveitar ao máximo os dias de lazer, porque só daqui a um ano é que haverá mais, se… calhar!
Atrás de um dia, outro vem, como diz o povo e com razão, o que quer dizer que se um dia corre mal, o outro pode ser melhor. Então, também podemos esperar que as coisas melhorem a nível económico e social, porque a continuar assim, não sei onde é que vamos parar.
E porque vamos quase todos para férias, vamos deixar as preocupações de lado, porque teremos tempo de nos preocupar a partir de Setembro. Aí sim, o desassossego vai instalar-se novamente e tudo começa de novo. Parece que pouco há a fazer! Queixar-nos para quê?
É pena somente que este país, com tão boas referências, se tenha virado de pernas para o ar e que a situação económica das famílias esteja tão má! Quem diria? Quando a classe média já não tem dinheiro para comer, o que é que se pode fazer? Quando o desemprego cresce sem controlo, quando o investimento está parado, quando quem comprou a sua casa, a vê agora penhorada por falta de pagamento das prestações, o que é que se pode fazer? Digam-me que país é este, porque me parece que estamos numa plataforma diferente, qual jangada de pedra, como diria Saramago, que se afasta do continente a que um dia pertencemos e se vai afundando num oceano desconhecido, talvez à procura de uma Atlântida desaparecida há muitos séculos! Enfim!

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