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Relato de um enfermeiro sobre os dias na linha da frente de combate à pandemia

Relato de um enfermeiro sobre os dias na linha da frente de combate à pandemia
  • 18 de Dezembro de 2020, 12:37

Quando a região começou a ser afectada pela doença provocada pelo novo coronavírus, Rui Martins de 42 anos, e enfermeiro há 16 anos, trabalhava no internamento de medicina homens no hospital de Bragança. O serviço foi o destacado para esta doença e passou a tratar doentes Covid. Ficou também infectado, ainda em Março. E admite que a experiência tem sido complicada e marcante.

“Esta experiência não é fácil, tanto a nível pessoal, familiar, como em relação aos doentes. Temos de dar muito de nós e a nível psicológico é difícil. Pelo facto de ter sido doente Covid positivo, a nível psicológico, ainda custa mais cuidar destes doentes”, admite

O enfermeiro admite que há dias muito complicados e com reviravoltas. “Às vezes são casos surpreendentes, não se estava à espera. Os doentes podem estar bem num dia e no dia seguinte fazem pneumonias muito complicadas ou têm problemas respiratórios graves que já não revertem, evoluções muito repentinas quando comparado com outras pneumonias bacterianas”, relata.

Na área de internamento dedicada à Covid chegam doentes com sintomas graves da doença, mais de 70% com pneumonia e apesar da experiência a tratar outras doenças respiratórias, admite que estes casos são bastante distintos.

“Estes doentes fazem pneumonias bilaterais, habitualmente ficam com 50 a 70% dos pulmões atingidos, são bastante complicadas, daí terem de ficar ventilados em muitos casos”, refere.

Por vezes, as evoluções surpreendem os profissionais de saúde e não só em casos de doentes com outras patologias e mais idosos. “Temos pessoas com 60, com 40 e mesmo 30 anos. Alguns que não se suspeitaria que teriam de ser internados. Algumas pessoas têm morbilidades associadas, mas outros não, são saudáveis e desenvolvem sintomas graves”, refere.

O vasto material de protecção que estes profissionais têm de usar, desde tapa-pés, batas, três pares de luvas, touca, cogula, óculos e duas máscaras, são necessários, mas também causam constrangimentos na comunicação e tratamento dos doentes:

“Tentamos proporcionar-lhes o internamento o menos doloroso possível, dentro das condições. Com o EPI os doentes só nos vêem os olhos. É um mal necessário, colocar estas barreiras, mas tentamos fazer com que não sejam tão difíceis para os doentes e para nós, tentamos fazer o melhor que podemos”, conta, admitindo que causa alguns constrangimentos, “mesmo no desempenho profissional” e que, além do desconforto, “há uma relação menos próxima com os doentes”.

Rui Martins refere que a diminuição de casos não implica a diminuição imediata da pressão hospitalar, especialmente nos cuidados intensivos e que insiste que se mantenham os cuidados, mesmo na época de natal e em especial com os idosos e pessoas de risco.

O testemunho de um enfermeiro na linha da frente no combate à Covid-19 em Bragança, que acredita que, mesmo com a chegada da vacina, a normalidade pré-pandemia ainda vai demorar alguns meses. Escrito por Brigantia.

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