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Cuidadores informais de Alfândega da Fé relatam histórias de dedicação

Cuidadores informais de Alfândega da Fé relatam histórias de dedicação
  • 2 de Dezembro de 2021, 09:18

Na maioria das vezes, para que os mais velhos não acabem a vida nos lares e instituições, os familiares dedicam a vida a tomar conta dos idosos, mas precisam de muitas outras ajudas. A jornalista Ângela Pais ouviu o testemunho de três cuidadores de Alfândega da Fé, onde já há uma equipa municipal que se dedica a dar-lhe apoio.

Elvira Realista é de Sendim da Serra, tem 70 anos e cuida do marido há 22. O homem, hoje em dia com 77 anos, teve um AVC, e precisa de vários cuidados. Está acamado e sofre de demência, sendo que não reconhece ninguém. A dependência que tem obriga a que Elvira Realista lhe dedique a vida. “Durante dez anos tinha que lhe dar banho, vestir, calçar e sentar à mesa, mas ele comia pela mão dele. Depois tudo piorou. Teve demência e, neste momento, não conhece ninguém. Está acamado, mas todos os dias o levanto. Tenho ajuda, até às duas da tarde, do Cetro Social e Paroquial de Picões. Depois, a minha filha vem almoçar a casa e ajuda-me a pô-lo na cama. À noite é o meu filho que me vem ajudar a tratar dele. Tenho que lhe dar a comida toda passada, os medicamentos, faço tudo”.

Aos 48 anos Elvira Realista deixou o café e o mini mercado que dirigia. Abdicou de tudo para que o marido envelhecesse em casa, mas admite que é complicado. “Não há palavras para uma pessoa explicar isto. Eu olho e penso naquilo que ele era e no que se tornou. É muito complicado. Ver as expressões de desgaste numa pessoa que já não é o que era”.

Judite Camelo, de 60 anos, também é um dos exemplos de altruísmo e de sacrifício. Deixou a vida em França, onde estava emigrada, para vir tomar conta dos pais. Um trabalho complicado, já que, além dos vários problemas, o pai não anda e a mãe sofre de demência. “O meu pai tem 91 anos. É diabético e hipertenso. Também tem artroses e não anda. Tenho que dar a insulina, de manhã, os comprimidos, ao meio dia, e medir os diabetes à noite. A minha mãe, de 82 anos, tenho que a levantar, dar a medicação esmagada. Neste momento, ela não consegue fazer nada porque perdeu a noção de tudo. Eu não me preparei para isto. Faço aquilo que sei e posso”.

A mulher, que se assume como cozinheira, enfermeira, médica, amiga e filha, toma conta dos pais há três anos mas admite que há muitas coisas que ficam para trás. “Eu esqueci-me de mim e, muitas vezes, o meu marido me diz isso: ‘onde está a Judite que conheci?’”.

Jorge Falé também deixou a vida noutro sítio para voltar a Alfândega. Voltou para a terra porque a mãe já não conseguia tomar conta da tia, de quem trata hoje em dia, mas com ajuda. “Moro com uma tia que tem 97 anos. A minha mãe faleceu há três anos e eu estou cá há quatro. Elas ficaram a meu cargo de forma circunstancial. Eu reformei-me e vim ajudar a minha mãe porque ela sozinha já não conseguia tomar conta da minha tia. Tenho uma empregada das 8h30 às 17h00, o que facilita o trabalho. Não entanto, a partir dessa hora e ao fim-de-semana sou eu que faço esse trabalho. É uma perda de tempo, mas é assim. Eu não a posso deixar sozinha, tenho que lhe fazer companhia e tenho que lhe dar de comer e deitar”.

Apesar de abdicar, em parte da vida normal, diz que não é opção institucionalizar a tia. “Tem uma cabeça impecável. Em termos cognitivos está bem. Está cientificamente provado que em casa vivem mais tempo e com mais dignidade. Não quer dizer que nas instituições os tratem mal”.

Estes cuidadores têm agora a ajuda da Equipa de Atenção Biopsicossocial à Pessoa Idosa, que está no terreno desde Maio e faz visitas ao domicilio, apoiando os cuidadores em várias áreas.

Uma das grandes missões desta equipa é ajudar estas pessoas a adquirir o Estatuto do Cuidador Informal, já que são vários os cuidadores que não o têm, muitas vezes por desconhecimento da sua existência.

Escrito por Brigantia

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