Pessoas que vivem à procura de rede em aldeias do concelho de Bragança e de Vinhais
Em muitas localidades do distrito de Bragança, em especial aldeias afastadas dos centros urbanos, a rede é fraca, as chamadas caem, a internet não funciona e às vezes até é difícil enviar mensagens escritas. E em pleno século XXI, há mesmo localidades em que nem para o 112 é possível ligar.
É o que acontece em Guadramil, no concelho de Bragança. Joaquim Rego, de 48 anos, lamenta não ter rede de nenhuma operadora na aldeia, nem para pedir auxílio em caso de emergência.
“De vez em quando, nalguns sítios ainda dá para ligar para o 112, mas em poucos sítios. Principalmente para esse número deveríamos ter rede. Andamos pelo campo, acontece-nos alguma coisa, como já me aconteceu a mim, tenho cabras, torci este pé e para vir para casa não consegui ligar”, contou.
Em Guadramil, para usar o telemóvel tem de andar à procura de rede, como aconteceu quando precisou de receber um código da Segurança Social.
Ali perto, na Petisqueira o problema repete-se e só é atenuado pela proximidade com Espanha, já que é a rede do país vizinho que ajuda a quebrar o isolamento, como confirma Maria Amélia Pêra.
“Apanha rede espanhola, mas portuguesa não apanha. O meu filho tem o tarifário português, mas apanha com o roaming. É uma vantagem que temos, senão aqui estávamos isolados completamente. Em todas as aldeias tem a rede portuguesa, eu acho que aqui também deviam pôr uma antena”, disse.
Altino Pires, presidente da União das Freguesias de S. Julião de Palácios e Deilão, que tem como anexa Petisqueira com cerca de 20 habitantes a tempo inteiro, mostra-se preocupado com o facto de não ser possível ligar nem para o 112 e entende que o roaming nacional com partilha de antenas pelas diferentes operadoras seria a melhor opção para ultrapassar este problema. O autarca critica a desigualdade de acesso a este serviço.
“Quando ouvimos até as políticas nacionais que somos portugueses e todos temos direitos, sabemos perfeitamente que há questões que não são para todos. E esta questão da cobertura de rede não esta para todos. Há-de haver uma série de Petisqueiras por este país fora que não têm rede”, afirmou.
Em muitas aldeias de Vinhais o cenário é o mesmo. Na União de Freguesias de Quirás e Pinheiro Novo o isolamento não se faz sentir apenas pela longa distância à sede de concelho mas também pela falta de rede móvel e internet. Cisterna é uma das localidades desta união de freguesias sem cobertura. Que o diga Mavilde Correia, que é obrigada a ter tarifário espanhol para conseguir comunicar.
“Eu tenho telemóvel espanhol. Não tenho grandes problemas porque tenho os dois telemóveis, um espanhol e um português. Então o espanhol desenrasca-me sempre. Sou obrigada a ter rede espanhola para conseguir comunicar. São mais custos, mas sinto-me segura. Quando preciso é a rede espanhola que utilizo”, referiu.
Em localidades como esta, sem cobertura de rede, e em que a maioria dos habitantes é idosa, o telefone fixo é o único meio de comunicação. No que toca à internet, a situação ainda é pior. Recentemente a ANACOM fez um estudo em Vinhais e concluiu que mais de metade da população não tem acesso à internet. A presidente da União de Freguesias de Quirás e Pinheiro Novo, Zélia Libório, já não acredita em mudanças.
“Eu já nem acredito em nada, porque é muita reunião, toda a gente promete muito, mas depois fica igual. Acho que ninguém se importa se nós gostamos de estar aqui e melhorar a nossa qualidade de vida”, afirmou.
A autarca reconhece que, perante o pouco que tem sido feito para melhorar a cobertura de rede, as pessoas já se “habituaram a estar isoladas”.
No âmbito do leilão do 5G, dentro de dois anos, 75% da população dos territórios de baixa densidade tem de ter cobertura de rede e em 2025 deve abranger 90% dos habitantes. Mas há quem não acredite que estas obrigações permitam que todas as localidades passem a ter rede.
Escrito por Brigantia